Integra

“Criança feliz, feliz a cantar
Alegre a embalar, seu sonho infantil.
Ó meu bom Jesus, que a todos conduz,
Olhai as crianças do nosso Brasil

“Criança Feliz” – Francisco Alves

É assustador! A manchete de uma notícia de jornal recente expõe a crueza de um drama violento, mas é apenas a ponta de um iceberg de informações cruéis, dando início a um desfile de dados que impressionam, à medida que vão sendo revelados – “Ansiedade é a principal causa de incapacidade entre crianças brasileiras de 5 a 9 anos”.

O assustador não é a ansiedade, uma vez que ela pode ser entendida como emoção natural, e benéfica porque ajuda o corpo a se preparar para perigos, segundo a definição tradicional.

Mas impressiona porque a manchete diz que ela causa incapacidade. Deve assim ter se tornada excessiva, sentida com constância, e atrapalha a vida diária – um transtorno, que causa sintomas físicos dolorosos (como falta de ar, tontura, tensão nos músculos etc.), e mentais (como medo constante, dificuldade de foco, irritação e preocupação exagerada com o futuro).

Este último aspecto, a relação doentia com o futuro, que pode levar ao imobilismo e ao desespero, também assusta porque a “incapacidade” da manchete, se refere a crianças de 5 a 9 anos.  Ou seja, essa patologia pode perdurar durante a vida toda, formando adultos acríticos, ou críticos demais, e nada criativos.

A notícia é baseada em dados de pesquisa do estudo GBD 2023, ou “Estudo da carga global de doenças”, que concluiu que cerca de 21% dos brasileiros convivem com pelo menos um transtorno mental.   

E outras manchetes demonstram a necessidade de tratar com urgência essa questão. Somente nos últimos dias tivemos várias:

Crianças de 5 a 9 anos lideram alta de internações por saúde mental em SP;

Transtornos mentais são 1ª causa de perda de anos de vida saudável entre crianças e jovens;

Registros de ansiedade entre crianças e jovens superam os de adultos pela 1ª vez no Brasil”;

e muitas outras.

Os pesquisadores relatam o baixo número de estudos sobre o assunto e, diante dos números apresentados, a urgência de incorporar a saúde mental à infância e à juventude, em políticas públicas, o que não ocorre, pelo menos de forma explícita, em documentos como o Estatuto da criança e do adolescente.

As recomendações específicas da área de saúde incluem diagnóstico e tratamento precoce, pois o que ocorre hoje é que a atenção fica restrita praticamente ao acompanhamento de casos já em estado grave, e a ampliação das portas de entrada de cuidado além dos serviços tradicionais, e englobando escolas e centros comunitários, além de transparência no uso de recursos destinados a área pelo SUS- Sistema Único de Saúde.

A escola é considerada com o ponto estratégico para identificação precoce, mas todos sabemos que ela não pode ser sobrecarregada e ficar sozinha arcando com essa responsabilidade.

Entre os possíveis motivos para o aumento das taxas são apontados entre muitos outros, a exposição precoce e maciça às telas, as dificuldades de contatos face a face, e baixa convivência familiar e social.

Para minha área de atuação, os Estudos do Lazer, onde desenvolvi pesquisas e publiquei textos por mais de trintas anos, o furto do lúdico na infância, as dificuldades para brincar, potencializadas pelo advento e incorporação das novas tecnologias da informação e comunicação, e sua incorporação de forma não adequada à vida das pessoas, incluindo aí crianças e jovens, contribuem para essa triste situação.

É preciso parar o crescimento dos números assustadores apresentados atualmente, diminuí-los, e se possível extingui-los, para que a construção do futuro e a fruição da vida presente não sejam irremediavelmente contaminados pela nossa omissão.

A criança feliz, da velha canção popular, reducionista e romântica, hoje é infeliz. Que ela não dependa apenas da fé religiosa para seus cuidados. Todos nós precisamos olhar por ela, e agirmos, ou reagirmos, frente a situação assustadora que se apresenta.