Da "inutilidade" ao prazer da leitura.
Integra
“Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar”
Rubem Alves.
Nossa educação relacionada a leitura, ainda que um privilégio, num país de desigualdades, tem ranços de visão utilitária. Somos levados a ler, os privilegiados, por obrigação e para obter conhecimentos úteis, reduzindo o conceito de utilidade como serventia, proveito, vantagem, lucro. Talvez por isso se fala em criar o hábito, a obrigação da leitura, nos processos educativos.
Mas a utilidade significa também o grau de satisfação que algo proporciona. Então deveríamos falar de uma educação que envolvesse o prazer da leitura, coisa que a visão utilitarista foi reduzindo, estreitando o conceito.
A educação pela leitura é conhecida de todos nós, pela sua importância na obtenção de conhecimentos que nos torna seres humanos, e no nosso processo de aperfeiçoamento. Ela é a base da civilização e orienta o nosso dia a dia. Leitura entendida em sentido amplo, não só de livros, mas por outros meios: imagens, gestos, sons, falas etc.
As novas tecnologias de informação e comunicação trouxeram mais possibilidades de “leitura” como informação utilitária, e isso, somado à dificuldade de pessoas em ler, está tornando, cada vez mais, a leitura “inútil”, e o livro obsoleto, da perspectiva “útil” sectária, fazendo com que cada vez menos seja enfatizado o grau de satisfação – o prazer de ler. E os livros com suas formas, texturas, cheiros, possibilidade de manuseio, não são mais necessários, ocupam espaço “que poderia ser útil” nas casas, e até em bibliotecas, sendo banidos de escolas, dando lugar às telas conectadas, que são excelentes formas de informação e comunicação, mas não podem ser as únicas.
Estamos nos esquecendo que a leitura não precisa ser vista apenas como uma ferramenta de aprendizado, mas vai muito além, como forma de descanso e divertimento. É uma espécie de culto ao belo, ao estético, ou de recuperação desses elementos no mundo, na vida.
Exige silêncio, concentração, acalma, e desestressa o cotidiano barulhento, disperso e enervante.
Vivemos dominados pela ideologia do funcional, onde é preciso que tudo tenha uma função. E aí o que não tem uma função utilitária, deixa de ser necessário e passa a ser considerado um luxo. Isso vale para a cultura em geral, não apenas para a leitura.
Mas é no mundo da imaginação, da curiosidade, de descanso e, longe da obrigação, que encontramos o prazer de ler. Aquela sensação agradável que mistura contentamento, alegria, satisfação e relaxamento, própria da vivência do componente lúdico da cultura.
Recorrendo ao “Homo ludens”, de Huizinga, clássico para os estudos do lúdico, ficamos sabendo que o princípio que originou a cultura, foi o jogo, com a linguagem, originalmente, um “jogo de palavras”.
Recuperar o prazer de viver pode vir também e de modo enfático pela leitura, pela literatura, pelo ler por prazer, pelo gosto da leitura. Aqui, não se trata de qualquer leitura, mas daquela que não é apenas funcional, da perspectiva “utilitarista”.
Dados da Cãmara Brasileira do Livro, demonstram que, mesmo ainda muito baixos, os números da compra de livros pela população brasileira vêm crescendo. Mas, as edições mais recentes da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil demonstram que menos de vinte por cento leem por prazer.
Ler por prazer desafia a lógica da produtividade funcional, do performar, e a aceleração que o dia a dia impõe, pelo resgate da falta de compromisso, negação de metas e medições e do viver em função do julgamento de outros.
O prazer da leitura desperta a imaginação, com nossos pensamentos, nossas marcas, nossa capacidade de concentração, através do enlevo que as histórias lidas propiciam. São momentos em que o leitor se maravilha com algo que lhe é apresentado, e se distrai de todo o resto, com a concentração na beleza, como acontece com a arte em geral.
Acabei de ler uma ótima crônica de Julian Fuks, em que ele conclui que “a maior brincadeira já concebida pela humanidade é a literatura”.
Que venha o inútil, com seus valores e sabores, com o prazer da pausa, que nos permite desacelerar.
Brinquemos, pois, com palavras e pensamentos, com imaginação. Joguemos com letras, em todas as faixas etárias, recuperando o brincar tão relegado ao segundo plano para as crianças, que assim se transformam em adultos que leem pouco por prazer, e que foi banido para jovens, adultos e idosos. Brinquemos de ler, tendo como suporte, esse brinquedo feito de letras.
Viva a inutilidade!!!