Integra

As comunidades carecem de santos e heróis. Sempre e em todos os lugares precisam de arquétipos e exemplos a seguir, que se arranquem do chão da mediania e não deixem morrer nos demais a coragem, o destemor e a ousadia. Sem eles as nações não se fazem e sustentam. Quando não existem, urge inventá-los, não importa em que domínio, nem a proveniência ou estrato social. São imprescindíveis para investir neles a recriação de símbolos e epopeias do passado, a confiança no presente e a esperança no futuro. Para se transcenderem e chamarem os outros para a observância do dever da transcendência.
Muitos desses taumaturgos são criados no desporto, como poetas desmedidos do corpo, do esforço e do suor, da dor e da vontade, da dedicação e persistência, da imaginação e ilusão. Os feitos, que realizam, não são apenas seus, nem apenas desportivos; são de um País inteiro e bandeira ondulante do pulsar das forças e anseios da população.
O ídolo desportivo transporta nos ombros o fardo de traumas e angústias, de derrotas e humilhações, de sonhos e utopias de grandeza e dignidade dos povos. Ergue, nas asas do triunfo, o orgulho adormecido da sua gente e faz irromper, no grito de vitória, a voz reprimida dos concidadãos. Porém, ele configura o ‘herói tragicamente humano’: após os fugidios anos de glória, vê empalidecer a luz das celebrações e dá consigo a conhecer penosos e escuros dias de esquecimento. O herói, que traz festa e alegria ao povo, acaba na penumbra das atenções.
Sim, o ‘herói trágico’ está no centro da existência da sociedade humana. Arde como uma vela para iluminar os restantes, até que a chama se extingue no altar da imolação. Afinal, em todas as culturas e civilizações, aquilo que merece admiração e exaltação não é tanto o sacrificado, mas é sobretudo a disponibilidade para o sacrifício. No caso de Cristiano o destino tem sentido diferente: escapa à tragédia, porquanto se tornou lenda universal e mito intemporal. Em toda a parte goza de apreço e afeto; é imorredoiro na lembrança e no tempo.
CR7 lutou e “passou a vida a querer ser o melhor”, para assim estar à altura de “poder representar o melhor país do Mundo” condignamente. Sabia que viria o último dia de vestir a camisola nacional; e pediu que então sorríssemos por dentro e por fora, “porque um menino, que sonhava nas ruas, conseguiu viver muito mais do que alguma vez imaginou”. Sai agora de cena, renunciando à homenagem que lhe era devida; é esse o golo magnificente e sublimador que marca nas balizas da incúria e da mesquinhez.

Jorge Bento
07.11.2026