Resumo
A dependência de exercício físico (DEF) caracteriza-se por um padrão comportamental compulsivo em que o indivíduo se sente compelido a manter a prática de exercícios físicos, mesmo diante de prejuízos físicos, emocionais e sociais. Esse fenômeno, frequentemente observado em esportes de endurance, como o triathlon, carece de critérios diagnósticos formalizados, sendo considerado um construto multifatorial. O objetivo desta tese foi investigar a dependência de exercício físico em triatletas brasileiros e possíveis variáveis correlatadas. Esta investigação foi composta por dois estudos. O Estudo 1 consistiu em uma revisão sistemática da literatura sobre prevalência, instrumentos de avaliação, variáveis correlatas e desafios metodológicos na análise da DEF em triatletas, tendo identificado prevalências entre 5,5% a 20%, além da associação da DEF com motivação extrínseca, transtornos alimentares, insatisfação corporal, identidade atlética e baixa disponibilidade energética. O Estudo 2 com delineamento transversal e abordagem quantitativa foi conduzido com 1.032 triatletas brasileiros, homens e mulheres, recrutados por meio de estratégias digitais e em colaboração com a Confederação Brasileira de Triathlon (CBTRI). Os participantes responderam a um conjunto de instrumentos validados, incluindo a Exercise Dependence Scale-Revised (EDS-R), o Body Shape Questionnaire (BSQ-8), a Drive for Muscularity Scale (DMS), a Female Muscularity Scale (FMS), a Escala de Insatisfação e Checagem Corporal nos Esportes (EICCE) e a Sport Motivation Scale (SMS-Br). Os resultados indicaram que 11,1% dos triatletas apresentaram risco para DEF, com diferenças significativas entre os sexos nas subescalas de Tolerância, Abstinência e Falta de Controle. A regressão logística identificou como preditores da DEF: frequência semanal de treino, motivação extrínseca, histórico de overtraining e idade até 30 anos. As análises reforçam que a DEF está associada a padrões disfuncionais de motivação e à busca por controle corporal, sendo mais prevalente entre jovens triatletas e aqueles com maior engajamento em treinos intensos. Conclui-se que a DEF é um fenômeno relevante no contexto do triathlon brasileiro e deve ser considerada ao pensar estratégias de prevenção e promoção da saúde.