Editorial

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Coletiva - n.8 - 2012

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Passadas as Olimpíadas de Londres, os olhos do mundo logo se voltaram para o Brasil. E por uma razão bastante simples: o calendário mostra que os mais importantes megaeventos esportivos mundiais serão realizados no país nos próximos quatro anos. Em 2013, a Copa das Confederações, que reúne as seleções de futebol campeãs continentais e do país anfitrião, ocorre pela primeira vez na América do Sul. Em 2014, a Copa do Mundo de Futebol, uma disputa que envolve as melhores seleções de futebol do planeta, voltará ao continente americano após longos 20 anos. Finalmente, em 2016, as Olimpíadas e as Paraolimpíadas, eventos inéditos na América do Sul, trarão ao país os melhores atletas do mundo que participarão de dezenas de modalidades esportivas.

A perspectiva de realização desses megaeventos tem mobilizado amplos setores da sociedade e do Estado no país, suscitando um importante debate acerca dos prós e contras em sediá-los. Mas tal debate não é inédito. Por exemplo, em seu livro Soccernomics, Simon Kuper e Stefan Szymanski dedicam um capítulo de título bastante sugestivo e irônico: "Felicidade. Por que sediar uma Copa do Mundo é bom para você?". Nele, os autores mostram, baseados em diversos estudos econômicos, que o chamado legado, supostamente gerado pela realização de megaeventos esportivos, não justificaria inteiramente a sua realização. Sobretudo em países com enormes carências em infraestrutura e nas áreas da habitação, saúde, saneamento, segurança, educação, mobilidade urbana, etc.

E ao tratar da realização da Copa do Mundo 2014 no Brasil, e de passagem da Olimpíada do Rio 2016, Kuper e Szymanski indagam, então, por que um país deve aceitar, e até "duelar" com outros, para sediar um megaevento esportivo. Para eles, a resposta é simples: porque tais eventos são "divertidos". No entanto, logo complementam a resposta, defendendo que os governantes deveriam ser suficientemente sinceros para apontar os prós e os contras de realizá-los, quanto custará a "diversão" e o que poderia ser feito se, em vez de sediar tais eventos, os recursos ali gastos fossem destinados a atender as necessidades das populações desse país.

De fato, a referência ao livro de Kuper e Szymanski mostra que muitas das questões suscitadas pela realização de megaeventos esportivos no Brasil - como financiamento público para a construção e reformas de estádios de futebol, inclusive em estados de pouca ou quase nenhuma tradição futebolística, e programas de intervenção urbana, como o chamado PAC da Copa, que envolve bilhões de reais e dezenas de projetos em todas as 12 cidades onde ocorrerão os jogos - não são novidades para os que acompanham a realização de megaeventos esportivos em outros países a partir dos anos 1990.

Assim, para ampliar o debate sobre as oportunidades e os impactos gerados pela preparação e realização de tantos megaeventos esportivos em tão pouco tempo e em um só país, no caso, no Brasil, a Coletiva dedica este número ao tema. E o faz, inicialmente, reproduzindo exatamente o referido capítulo do livro Soccernomics, em especial, porque ali há uma visão mais geral e um olhar externo sobre os megaeventos esportivos no Brasil. Pela abordagem e pelas questões que suscita, o texto de Kuper e Szymanski abre o primeiro bloco de artigos, composto pelos textos dos urbanistas Raquel Rolnik e Tomás Lapa. Ali, são abordados os impactos sociais e econômicos e as violações de direitos das populações atingidas pelas intervenções nas cidades-sede da Copa, incluindo o Rio, que também sediará a Olimpíada, além do debate em torno dos legados desses megaeventos, tema abordado por Lapa ao tratar da Copa em Pernambuco. E são os legados, sobretudo da Copa do Mundo 2014, que estão no foco das análises do antropólogo Arlei Damo e do sociólogo alemão Martin Curi. Ambos afirmam ser impossível identificar e mensurar, hoje, os possíveis legados dos megaeventos no Brasil. Para Damo, "só o tempo dirá" se estes deixarão algum legado efetivo para o país. Para Curi, "é praticamente impossível fazer um balanço definitivo".

Abrindo o segundo bloco, o artigo do sociólogo argentino Pablo Alabarces aborda as cerimônias de abertura das Copas e das Olimpíadas. E confessa que não abre mão de assisti-las porque tais cerimônias dizem muito "do que uma sociedade pensa de si mesma e, muito especialmente, como uma sociedade deseja ser vista". É pensando assim que aguarda ansioso o que o Brasil está preparando para 2014 e 2016: mostrar-se como o "novo rico na festa dos poderosos" ou "o irmão maior dos povos latino-americanos a mostrar a dura realidade do subcontinente e a luta de seus povos para superá-la"? Já o antropólogo Luiz Henrique de Toledo centra sua análise na transformação da Copa do Mundo em um megaevento. Para tanto, parte das noções de ritual e evento. A primeira, segue norteando a mídia e o imaginário dos torcedores locais; enquanto a segunda segue a lógica da indústria de entretenimento, que, no contexto da globalização, transforma eventos esportivos em megaeventos.

O terceiro bloco é composto por artigos focados no futebol e nos torcedores, no caso do texto do antropólogo Édison Gastaldo, e também nos espaços físicos em que o futebol é praticado e atrai milhares de torcedores, no caso do arquiteto e urbanista Cristiano Nascimento. Para Gastaldo, apesar de o futebol ter adquirido "uma dimensão empresarial", não devemos perder de vista que continua sendo "uma janela reveladora sobre quem somos, como vemos o mundo e o nosso lugar dentro dele". Para Nascimento, os estádios dos clubes de futebol são estruturas e espaços físicos cheios de significados para os seus jogadores e torcedores. E, se os torcedores correspondem ao décimo segundo jogador, o estádio seria o décimo terceiro, os quais, com a substituição dos estádios pelas novas arenas, estariam fadados a desaparecer.

O último bloco de artigos é formado por textos que tratam da segurança nos estádios e arenas esportivas, em especial em tempos de megaeventos. Tanto o sociólogo José Luiz Ratton quanto o juiz de direito Aílton Alfredo de Souza procuram analisar a origem da violência entre torcedores, ou por estes praticada, durante eventos esportivos, o tratamento dispensado pela mídia ao fenômeno e, no caso de Souza, como a Justiça o tem tratado.

Este número da Coletiva traz ainda uma entrevista com o jornalista Juca Kfouri e três reportagens, em que são abordados vários dos temas analisados pelos especialistas em seus artigos, além de uma reportagem sobre o único jogo de uma Copa do Mundo realizado no Nordeste, em 1950, assinada pelo jornalista Breno Pires, e um especial com imagens do jogo e da cobertura da imprensa à época, reproduzidas por ele.

Editores temáticos: Túlio Velho Barreto e Jorge Ventura de Morais | Editores: Alexandre Zarias, Allan Monteiro e Pedro Silveira | Capa: "Peladeiros"; Roberto Ploeg; óleo sobre tela; 90 x 60 cm; 2010. Acervo pessoal Túlio Velho Barreto. | Especial: Breno Pires | Entrevista: Juca Kfouri | Túlio Velho Barreto | Reportagens: Beatriz Albuquerque, Breno Pires, Caroline Rangel e Flora Freire | Artigos: Raquel Rolnik, Ailton A. de Souza, Cristiano Nascimento, Édison Gastaldo, José Luis Ratton, Luiz Henrique de Toledo, Martin Curi, Pablo Alabarces, Tomás de Albuquerque Lapa, Arlei Sander Damo, Simon Kuper e Stefan Szymanski

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