Resumo
O tratamento oncológico está associado à disfunção dos músculos respiratórios e à redução da capacidade funcional, impactando negativamente a atividade física e a qualidade de vida, inclusive após a alta hospitalar. O treinamento muscular inspiratório (TMI) tem sido proposto como estratégia não farmacológica de reabilitação, embora persistam lacunas quanto à sua efetividade e padronização. Além disso, os efeitos a longo prazo do transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) sobre esses desfechos ainda não estão completamente esclarecidos. Objetivo: Avaliar os efeitos do TMI em pacientes oncológicos e analisar os protocolos utilizados. Além de investigar a qualidade de vida e o nível de atividade física a longo prazo após TCTH, comparando-os com indivíduos sem câncer e entre diferentes diagnósticos (mieloma múltiplo e linfomas). Métodos: Foi utilizado como instrumentos de delineamento uma revisão sistemática com metanálise somado ao método transversal e descritivo. A revisão foi conduzida conforme PRISMA, com buscas em MEDLINE/PubMed, PEDro, BIREME, Web of Science, SCOPUS e EMBASE. Foram incluídos ensaios clínicos randomizados com adultos em tratamento oncológico. A qualidade metodológica foi avaliada pelos instrumentos RoB 2 e GRADE. As análises consideraram média, desvio padrão e tamanho amostral, com heterogeneidade avaliada pelo teste Q de Cochran e índice I² (p < 0,05). O estudo transversal foi realizado com adultos submetidos ao TCTH entre 2018 e 2023, subdivididos em 3 grupos: TCTH até 2 anos (n=36), TCTH após 2 anos (n=46) e o controle (n=70). A qualidade de vida foi avaliada pelo EORTCQLQ-C30 e o nível de atividade física pelo questionário de Baecke. Foram utilizados testes Qui-quadrado ou Exato de Fisher, ANOVA de um fator, teste t de Student e correlações de Pearson ou Spearman, com análise de tamanho de efeito (η² parcial, d de Cohen e r). Resultados: O TMI promoveu aumento significativo da força muscular inspiratória e da capacidade funcional em comparação ao grupo controle. Não foram observadas diferenças significativas na força muscular periférica e na qualidade de vida. Observou-se elevada heterogeneidade dos protocolos, sem padronização de carga, duração e frequência. Já os pacientes submetidos ao TCTH apresentaram pior qualidade de vida em comparação ao grupo controle, com diferenças estatisticamente significativas e clinicamente relevantes. Não houve diferença entre os grupos até e após 2 anos pós-transplante. Em relação à atividade física, o grupo controle apresentou melhores níveis, seguido pelo grupo após 2 anos e, por último, o grupo até 2 anos. Não houve diferenças relevantes entre mieloma múltiplo e linfomas. Conclusão: O TMI melhora a força muscular inspiratória e a capacidade funcional em pacientes oncológicos, embora ainda não haja padronização dos protocolos. Há indicativos do TCTH estar associado a prejuízos persistentes na qualidade de vida e a níveis reduzidos de atividade física, independentemente do tempo pós-transplante. Foi observada ainda uma tendência de melhora ao longo do tempo para o nível de atividade física. Além disso, o impacto sobre esses desfechos é semelhante entre diferentes diagnósticos oncológicos estudados.