Integra

Não se afobe, não
Que nada é pra já

.........
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos...”

Futuros amantes - Chico Buarque de Holanda

Até mesmo o poeta Chico Buarque, defensor da Natureza, com músicas como Passaredo (“,,bico calado, tome cuidado, que o homem vem aí...”) incorreu em erro na bela “Futuros amantes”, erro aliás que é muito cometido por pessoas quando se deparam com as mudanças climáticas – a ideia de que elas não são para hoje, e que não estejam próximas.  Nos seus versos pede calma, e diz que não há motivos para afobamentos quando o assunto é amor, que nada é para já, e que os escafandristas só virão quando o Rio for uma cidade submersa, vasculhar casas e almas.

As mudanças e suas consequências devastadoras estão bem próximas de nós no tempo e no espaço, o que deve nos motivar cada vez mais a nos posicionarmos, mesmo que não sejamos suficientemente generosos com as futuras gerações que terão que conviver com elas de maneira trágica, se providencias não forem tomadas agora.

A notícia vem do Rio, cantado nos versos do Chico   A praia de Atafona, no estado do Rio está sendo engolida pelo mar. Casas, ruas estão sendo tragadas pelas águas, junto com suas memórias. 

A erosão não é de hoje e envolve não somente as mudanças climáticas, mas a ação humana direta com a construção de barragens.

As ruínas da cidade que podem ser vistas hoje, incluem cerca de 500 construções. Atafona perde cinco metros por ano de terreno para o fundo do mar. Isso já vem ocorrendo há seis décadas e a situação se agrava cada vez mais,

Muitas famílias narram as construções de suas casas, como se estivessem brincando de fazer castelos de areia, que o mar leva. Esforço, dedicação, o sonho da casa própria, engolidos pelas ondas.

A própria ONU, reconhece que a cidade está em processo de extinção devido ao aquecimento global que provoca a elevação do nível do mar.

Mesmo com a cidade condenada, seus moradores e pescadores da região se recusam a sair do local. Isso demandaria a construção de novas casas, pelo poder público e a realocação. Mas, não há outra solução à vista, devido a dimensão gigante do problema.

A construção de barragens ao longo do Rio Paraíba do sul, só agravou as consequências das mudanças climáticas – aquecimento global, derretimento das geleiras, e aumento do nível dos oceanos.

Mas, não é tão somente Atafona. Outras cidades do Brasil e do Mundo estão sendo afetadas, e poderão se constituir em novas catástrofes em breve. A lista inclui capitais entre elas a cidade do Rio,

E não é também só o aumento do nível do mar, mas são afetadas ainda a qualidade do ar, o aumento e a intensidade das enchentes, a seca, enfim a vida no único planeta que, pelo menos por enquanto, ainda temos.

Quando pensávamos que os desastres ecológicos ocorreriam somente em futuro distante talvez nosso egoísmo não nos levasse a luta pelas mudanças macro que contribuíssem para minorar os problemas, pois eles só seriam vividos pelos nossos decentes, e não por nós. E nem optamos por soluções de uma perspectiva micro, pessoal mesmo, que diminuiriam, de alguma forma, o conforto das pessoas, no presente, ou provocar mudanças de hábitos arraigados, afetando nosso comodismo

Pois é urgente a tomada de posição e, mais do que isso a ação, em busca de soluções, e o engajamento na defesa da Terra.

Se nada for feito, agora, com urgência, somente os escafandristas poderão circular submersos onde outrora existiam nossas cidades;

Os amantes não devem se afobar e esperar pelos seus amores, como na canção em epígrafe, mas o Planeta não. Ele não pode aguentar mais. E os esforços para isso dependem de todos nós. Reagir ou submergir, a escolha é nossa, sem omissão. Enquanto há alguma esperança.