Espaços proibidos segregam pessoas e matam a convivência urbana.
Integra
“Os homens vivem cada vez mais amontoados lado a lado em aglomerações monstruosas, mas estão isolados uns dos outros”.
Milton Santos, “Pensando o espaço do homem”.
Vários autores, como o citado na epígrafe, já demonstraram que o uso do espaço é político. Mas, não precisamos recorrer aos acadêmicos para essa constatação. Basta observarmos alguns aspectos do cotidiano, como a distribuição desigual dos espaços, com famílias numerosas ocupando cubículos, enquanto casais moram em mansões com muitos e muitos metros quadrados; ou na distribuição de espaços ao redor de moradias; e equipamentos socioculturais que deveriam ser públicos, mas se concentram em áreas consideradas nobres, de difícil acesso da população em geral. Sem contar na aura de santuário de que muitos espaços se revestem, funcionando como uma barreira para a participação popular e a democratização da sua fruição.
A simples expressão “ponha-se no seu lugar”, utilizada em discussões e diálogos opressores, já demonstra que o espaço é político significando, não raro, “ocupe o espaço miserável em que a sua condição o colocou’.
O espaço público vem perdendo seu uso multifuncional, deixando de ser local de exercício de cidadania, encontro, de troca, de prazer, de lazer, de festa.
O que vemos na nossa sociedade, onde a busca pelo lucro a qualquer custo dita as regras, é a manipulação do uso do espaço como componente de aprofundamento das diferenças de classe, fato agravado pelo advento da globalização, que tornou o espaço global capital comum à humanidade, mas de efetiva utilização somente aos que dispõem de uma capital particular.
Temos observado iniciativas de privatização de espaços públicos, oficiais ou clandestinas, envolvendo praias e parques urbanos, sem regras definidas de proteção da participação popular, o que vem gerando muita discussão. Vemos também fechamento de ruas em bairros com população mais abastada, com instalação de cancelas e guaritas de vigilância, podendo entrar somente os moradores ou quem for autorizado por eles. São colocadas grades em jardins e equipamentos de lazer, dificultando sua utilização. Isso é feito em nome da segurança, sem perceber que a convivência e não a proibição do uso público do espaço contribui efetivamente para ela.
Os condomínios verticais e horizontais buscam a ilusão da saída individual para o “lar, doce lar”, nomeando suas moradas como “cantinho de sonho”, “refúgio do guerreiro”, mas têm em suas construções guaritas medievais, e fossos, com pontes separando as casas. E o lazer é individualizado, com profusão de piscinas e parabólicas, e bancos individuais nos jardins distando, em alguns casos, pelo menos dez metros uns dos outros.
Nos condomínios, as áreas coletivas deveriam ser de utilização dos seus moradores, mas a necessidade econômica de venda de imóveis, fez com que imóveis de preço menor fossem oferecidos juntamente com os de custo maior, com a desculpa social de integrar pessoas de classes sociais diferentes. Isso causou problemas quanto à convivência diária.
Tudo é agravado pelo preconceito arraigado contra pobres, que os coloca na posição de causadores de confusões, “barraqueiros”, “ignorantes”, fazendo com que sejam considerados não conhecedores de normas de convivência e de “boa educação” nas relações sociais. Como se essas alusões pudessem ser vinculadas automaticamente aos pobres, e/ou ser atribuídas só a eles.
E é aí que surge o mais novo absurdo na segregação do espaço urbano, na própria moradia. As notícias dão conta que, em São Paulo, nos condomínios mistos, em um mesmo empreendimento, portarias, áreas comuns e até opções de lazer separam hoje moradores de imóveis populares dos de apartamentos de maior renda em parte deles.
Há uma discussão acalorada entre os moradores, a gestão municipal e as incorporadoras, representadas pelas suas associações. Enquanto a Prefeitura da cidade afirma que condomínios mistos não podem restringir áreas comuns a uma parte dos residentes, a Secovi-SP e Abrainc dizem que esse entendimento pode encarecer despesas de apartamentos populares em empreendimentos com áreas 'exclusivas'.
Dessa forma um instrumento voltado à inclusão urbana, como o condomínio misto, converte-se em mecanismo indireto de valorização imobiliária e segregação socioeconômica. Neles, e em outras partes das cidades, a proximidade apenas física não elimina o distanciamento social. Vemos assim, o uso do espaço urbano dificultando os contatos humanos que não são funcionais do ponto de vista mercadológico e econômico. Como lembra o autor citado na epígrafe, a proximidade física é indispensável à reprodução da estrutura social. A crescente separação entre as classes agrava a distância social.
Isso tudo tem efeitos nocivos dificultando e impedindo a democratização do espaço, o exercício da cidadania, a participação popular, e a qualidade de vida das pessoas.
Até quando a segregação do espaço urbano quer seja ela física ou sociocultural continuará ocorrendo, permitindo novos absurdos como esses verificados nas discussões que envolvem os condomínios mistos de São Paulo?