Integra
Revelo mais um excerto da conversa de ontem, na Barca d'Alva, com Agostinho da Silva.
-- Mestre, creio que segue o bárbaro conflito no Oriente Médio.
-- Apesar de refugiado neste lugar idílico, não consigo abstrair do horror, nem tampouco ser neutral, dada a indecência dos sujeitos que o desencadearam.
-- A chusma de jornalistas e comentadores estrondeia que a agressão animal é um direito natural do norte imperial; e que a reação dos agredidos fere a lei internacional e o código civilizacional. Como encara isto?
-- Não são apenas eles que falam assim. A maioria dos dirigentes políticos gosta de fazer o papel de capacho e pau mandado do poder unipolar.
-- Nunca imaginei que fossem tantos e tão sem vergonha os apoiantes dos senhores da guerra.
-- Sabes, assemelham-se a cachorros atentos ao apito do dono. Basta que o imperador faça um sinal; e eles abanam logo as orelhas e o rabo. Estão sempre à espera, para se dirigirem ao caldeiro da comida e à cloaca.
-- Mas muitos têm curso superior e alguns até lecionam em universidades…
-- Coitadas das mentes que suportam os arrotos das fedorentas criaturas. Elas grunhem pela boca; porém o sonido é anal. Todavia isso não acontece só em Portugal; o mesmo cenário vigora nos jornais e canais televisivos de referência da Europa, na UE e nos governos da maior parte das nações. Nas encardidas elites europeias continua instalada a visão colonial, afeita a tratar com cenoura e chicote o sul global.
-- O que sucede lá fora não alivia o mal-estar interno.
-- Pois não. Acompanho a involução no nosso país. Os sacripantas dizem-se patriotas e não passam de traidores à Pátria. A estupidez não lhes permite perceber que os EUA querem erradicar as raízes e marcas portuguesas e espanholas da América Latina; visam impor em todo o lado os seus padrões. No Brasil também há inúmera gente, não pouca com apelidos portugueses, que leva os ianques no andor.
-- O que fazer, Mestre?
-- Não tenho resposta; somente possuo a convicção de que os senhores do norte jamais nos reconhecerão como ‘príncipes inter pares’. O nosso futuro é, como disse o Padre Vieira, no império da luz, dos afetos, da fraternidade universal, da música e da poesia, na comunidade dos diversos povos unidos pela lusofonia.
-- Deus o oiça, Mestre!
-- Ele ouve; porém deu-nos o alvedrio. Cumpre-nos escolher os caminhos que seguimos e assumir a responsabilidade das opções.