Integra

Foi por medo de avião
Que eu segurei pela primeira vez a tua mão
Agora ficou fácil, todo mundo compreende
Aquele toque Beatle, "I wanna hold your hand"

Medo de avião – Belchior

Quebrar a falsa sensação de segurança é o objetivo do elemento surpresa na ficção, seja na literatura ou em filmes, causando medo, horror e pavor.   As ameaças são duramente reveladas, e o caos é instalado repentinamente.

Imagine então quando já existe o medo instalado em um voo de avião, que nem sempre é visto da perspectiva romântica, como retratado na epígrafe.

Duas notícias publicadas na mesma semana revelaram a mistura de sentimentos que as pessoas reais, agora personagens dessas histórias, sentiram dentro de um avião, de perspectivas bem diferentes.

A primeira dá conta que um instrutor de voo saltou de avião deixando a aluna, de 22 anos, sozinha a bordo, na Argentina. Ele, de 42 anos, abriu a porta da aeronave e se jogou, suicidando-se.  Mesmo tendo planejado a ação deve ter sentido um misto de sentimentos ao cair, despencando para a morte: medo, angústia, alívio talvez.

Para ela a surpresa deve ter sido maior, mas também veio acompanhada pela mistura da dor de perder o instrutor, de rancor por ter sido lançada à própria sorte, e do medo de falhar na aterrisagem.

“Você sabe o que tem que fazer” disse ele antes de pular.  Ela, já com licença, mas com poucas horas de voo, comunicou o ocorrido por mensagem ao Comando de tráfego aéreo e pousou a aeronave. Ele foi encontrado sem vida.

A segunda detalha como um passageiro foi sugado parcialmente para fora da janela do avião, durante seu voo, logo após a decolagem, na Grécia.  Ele estava sentado do lado da janela e teve a cabeça e ombros aspirados, com violência. Sua esposa o segurou pelas pernas, e foi posteriormente ajudada por outros passageiros. Isso ocorreu logo após as informações que acontecem em todo início de voo, de que” máscaras de oxigênio cairão automaticamente, em casos de despressurização”, e que causam apreensões a muitas pessoas. As fotos mostram as máscaras caídas, e a janela quebrada.

A mídia local informou que o acidente foi causado por uma peça do motor que se desprendeu durante o voo, atingindo a janela.

A surpresa tanto para o sugado quanto para os demais passageiros e a tripulação deve ter aumentado o medo, causando terror ao acidentado e    a sua esposa, que teve que buscar forças e agir rápido para salvá-lo, acrescido do pavor de perdê-lo. Não o segurou pela mão, mas pelos pés, sem romantismo, mas com o instinto de sobrevivência mais elementar.

Mas, a mulher declarou posteriormente, uma frase muito romântica, quando disse que seu gesto foi motivado por amor: “se tivéssemos que morrer, morreríamos juntos”.

E foram longos cinco minutos de força, perseverança e compaixão. Para o homem os sentimentos foram tão intensos que motivou sua internação, em estado de choque. Afirmou depois que se lembra apenas de parte do ocorrido, pois perdeu a consciência várias vezes, durante o acidente.  Ainda tem ferimentos nas mãos e queimaduras por atrito. 

Mesmo sem romantismo, o sinto de segurança já afivelado contribuiu em muito para o sucesso do salvamento.

As duas notícias renderiam obras de ficção, “inspiradas em fatos reais”.  E para os espectadores dessas possíveis produções literárias ou cinematográficas aumentaria a sensação de perigo de forma desproporcional, ou a “falácia da disponibilidade”, segundo os psicólogos, instalada quando o cérebro superestima a probabilidade de uma catástrofe, pela lembrança das imagens da ficção.

Parte das cenas poderiam ter as músicas de Belchior e do Beatles, na trilha sonora, embalando as cenas românticas, que normalmente são usadas para suavizar as histórias, aumentando assim, a audiência e repercussão das obras: reais ou imaginárias geram mistura de emoções, fundadas no medo, que dá vontade de recuperar a mão afetiva da ajuda almejada, com romantismo ou não.