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EPÍGRAFE E PRÓLOGO-
EPÍGRAFE – MAL SECRET0 - Raimundo Correia
Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face 
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa

PRÓLOGO

O ser humano enquanto animal é maravilhoso, ainda que o consideremos apenas como organismo vivo, a ponto de se acreditar que a criação dessa unidade complexa, o corpo físico, só poderia ser obra de um ser divino.  E se imaginarmos esse animal com inteligência, vontade e personalidade, capaz de criar cultura, chegamos a perfeição máxima, mas também temos que enxergar a sua fragilidade, a vulnerabilidade que é imposta a ele, enquanto sistema de sistemas, mas sobretudo, por suas relações com o ambiente, com a sociedade e com os demais seres humanos, nas suas individualidades. 

Nossos personagens antes de tudo são seres humanos frágeis, que se relacionam em uma rede de fragilidades, uns alimentando as dos outros, nas suas fraquezas, transformando defeitos em qualidade de resistência para viver. O amor e as relações afetivas em geral, muitas vezes escondem frustrações e falta de aceitação da própria imagem, inseguranças, medos, dependências, e outras características menos nobres ainda.

E o que significa frágil?  Quebradiço, efêmero, fraco, que necessita de cuidados para se conservar. Assim são os personagens que se encontram nesta narrativa. Ou, em sentido amplo, seres sujeitos a delinquir, cometer ou agir de maneira criminosa, praticar delitos uns com os outros, e na maioria das vezes contra si mesmos, com a finalidade de se protegerem, enfim:  gente.

As aparências e o esforço para mantê-las a qualquer custo, mesmo que ignorando a vida em suas possibilidades, podem ser muito frágeis também.  Renuncia-se a vida plena e vive-se em rascunho, para preservar diferentes gêneros de aparência, e isso vai do autoengano, que talvez seja o mais alto grau de preservação da fragilidade, às máscaras usadas na relação a dois, com familiares e demais outros, mesmo que não sejam significativos, que se confundem e criam a impessoalidade da opinião pública, tão valorizada na vida social.  Aprovação, que significa não confronto de valores, e sua camuflagem necessária, talvez seja o que defina o maior anseio dos dias de hoje, e em nome dela se usam como desculpas a família, a religião, a sobrevivência profissional, todas elas com suas regras rígidas que não podem ser ultrapassadas. 

Todo o esforço e dedicação são usados para que as pessoas se sintam aprovadas, não importando a violência contra elas mesmas, e com o outro, mesmo que seja significativo. E com isso, em nome da fragilidade não assumida e travestida de força de fachada, com a manutenção das aparências, as pessoas e vidas são destruídas, relacionamentos nascem já mortos, ou simplesmente são usados.  

Busca-se a independência, a liberdade e a felicidade, sem perceber que está se recusando o próprio eu, e vivendo o mim, “objetificado” para que sejamos de acordo com o que pensamos que os outros idealizados pensam sobre nós, para aproximar os nossos comportamentos ao que esperam de nós, tudo em nome da aceitação abstrata, que não acrescenta nada, apenas tira, fazendo de nós pessoas vazias.

Vive-se (principalmente, os que não precisam se preocupar com as chamadas “necessidades básicas” do dia a dia, para sua sobrevivência), em um mundo de aparências para que sejam atingidas outras necessidades básicas essenciais para o ser humano como pessoa, como o amor, o carinho, o afeto, a empatia, e o interesse genuíno por si mesmo, pelo outro e pelo universo.

Somos cada vez mais seres descartáveis, usados e jogados fora, o que aumenta a nossa fragilidade, a necessidade de aprovação, o objetivo sempre buscado de manter “ as aparências, que enganam tanto quem se odeia, quanto quem se ama”, como diz o poeta na música, em relacionamentos sempre de fachada, o que faz girar a “Roda Viva”.

Temos cada vez mais hoje, em nossa sociedade o “Mal Secreto” da epígrafe, sendo vivido cotidianamente, e a “chaga cancerosa” nos corrói, mesmo sem sabermos, e mais ainda quando sabemos, e procuramos nos manter venturosos, para sermos aceitos e de alguma forma amados.

Nossa estória é sobre isso. Vamos a ela.

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