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JOÃO NELSON DOS SANTOS, 1953 – 2015.

João Nelson dos Santos nasceu em Aveiro, Portugal, e cresceu na cidade de São Paulo, onde sua família tinha padarias, uma característica típica daquela metrópole. Mas, desde sua juventude, procurou seguir posições profissionais em marketing e publicidade, buscando sua autonomia financeira.

Entretanto, ele decidiu diplomar-se em nível superior em Geografia, na Universidade de São Paulo - USP, uma dedicação nunca abandonada ao longo de sua vida, principalmente voltada para objetivos educacionais e para as então nascentes proteções ambientalistas.

Neste contexto de busca de realizações profissionais, João Nelson encontrou-se com o Esporte para Todos (EPT) nos anos 1980, e foi neste âmbito que fizemos uma amizade duradoura e bastante criativa nos anos seguintes.

Voltando aos anos 1980, eu dirigia a mídia EPT no Rio de Janeiro-RJ, em sua sede na Rádio MEC, de onde recebíamos notícias de todo o Brasil e as devolvíamos sob a forma de programa de rádio e da revista “Comunidade Esportiva”.

Ao conhecer este mecanismo de promoção local por uma central nacional, João Nelson transformou-se num dos entusiastas do formato e passou a ser um dos seus apoiadores mais ativos e dedicados. A razão desta adesão, bem perceptível na época, era a inclinação dele para promoções coletivas, comunitárias e voluntárias.

Este perfil desenvolveu-se no sentido ambientalista, nele incorporado desde sempre, como também por suas inclinações para a publicidade e marketing. No vivenciar desta mistura de dedicações pessoais é que nossa amizade solidificou-se, pois eu compartilhava de várias inclinações profissionais além da Educação Física. De certa forma, nós apreendíamos um com o outro nas aventuras esportivas do EPT. Foi uma época inovadora e bastante atrativa para um paulista pioneiro e um carioca curioso do Brasil e dos brasileiros.

Esta mútua aprendizagem uniu-nos até em relações familiares, extensivas até seu falecimento, já nos anos 2000.

João Nelson, inclusive, deu maior tom ambientalista ao EPT, criando eventos pioneiros em São Paulo, como a Subida da Serra da Cantareira, visando à proteção da natureza local. Ele também se associou à Prefeitura da Cidade de São Paulo na organização das Caminhadas abertas para a população aos domingos. Este evento tornou-se um exemplo de marketing e publicidade no esporte, pelo sucesso de sua grande aceitação e mobilização popular.

Com base nos contatos e no renome alcançado por João Nelson é que o EPT sobreviveu no final dos anos de 1980, pois foi ele o mobilizador de patrocínios para a revista “Comunidade Esportiva”, a partir de bases em São Paulo, então centro principal da publicidade no país.

Essas realizações uniram-nos em relações familiares, desde que compartilhávamos ideais sempre presentes. Ele me apoiava quando eu ia a São Paulo, e eu fazia o mesmo quando ele se deslocava pelo Brasil. Chegamos a fazer a “Comunidade Esportiva” juntos, com despesas pagas por patrocinadores.

Essas relações construtivas e exemplares atingiram o auge em 1992, quando se realizou a Conferência ECO-92, promovida pelas Nações Unidas na cidade do Rio de Janeiro, evento histórico e gerador dos movimentos ambientalistas até hoje atuantes em escala mundial.

Na época, João Nelson sugeriu-me a organização de uma grande caminhada, “estilo EPT”, para marcar o final da Conferência, com seus quase 200 países representados e centenas de jornalistas e visitantes. Eu achei a proposta demasiadamente audaciosa, mas conversei com Jürgen Palm, líder do movimento internacional Esporte para Todos, o qual, surpreendentemente para minha percepção, acatou a proposta e se entendeu com os dirigentes estrangeiros da Conferência.

Em resumo, consegui apoio de várias mídias nacionais e autorização da Prefeitura para fechar a famosa Avenida Atlântica, em Copacabana, numa manhã de domingo, para a tal Caminhada, numa tentativa de repetição do sucesso da cidade de São Paulo em anos anteriores.

O resultado foi marcante para nossas opções de realizações e para os efeitos de nossas experiências passadas. Cerca de 150 mil pessoas, visitantes estrangeiros e participantes locais, inundaram a famosa via fronteira ao mar de Copacabana, numa manhã fresca e ensolarada. Foi uma caminhada informal e de trocas amigáveis entre participantes. À frente, naturalmente, posicionamo-nos: João Nelson, seu filho – o menino João Fernando – e o autor do presente testemunho bibliográfico. Foi um momento glorioso, marcante nas nossas vidas de realizações esportivo-voluntárias.

Nos anos seguintes, assistimos ao EPT esvaziar-se como campanha e tornar-se uma atividade de praticantes independentes – corridas de rua, esportes de praia, esportes na natureza, academias ao ar livre etc. – uma tendência identificada em todos os países envolvidos em nexos esportivos mercadológico-voluntários. Mas permaneceu no Brasil, em particular em São Paulo, a memória das iniciativas dos nove mil voluntários – encontrados em 2/3 dos municípios do país – que se encontraram com promoções locais e comunitárias.

Naturalmente, João Nelson e eu permanecemos com nossas convicções ambientalistas e de informalidade atribuídas ao esporte. Assim se fez presente, mais uma vez, em 2004-2005, quando tive a oportunidade de organizar o Atlas do Esporte no Brasil (CONFEF, Rio de Janeiro, 2005), reunindo 410 autores voluntários do mundo esportivo nacional, no mais puro modelo EPT de mobilização, não por interesses de partes, mas pela causa do esporte, no seu todo construtivo.

Nesta obra de valorização local e grupal, longe dos vícios centralizadores, por vezes predadores, de governos atuais, a presença de João Nelson – agora já acompanhado de seu filho, João Fernando, então professor de Educação Física – fez-se presente com um capítulo. Este texto, até hoje em circulação nas versões digitais do Atlas do Esporte, permanece como testemunho e símbolo do autor e de sua obra.

João Nelson dos Santos, professor de Geografia, voluntário ambientalista e esportivo, português de nacionalidade e brasileiro por opção, faleceu em São Paulo, cidade de sua morada familiar, em 2015. Mas sua memória e seus exemplos de vida permanecem entre nós.

Lamartine DaCosta, Rio de Janeiro, maio de 2026.