Integra
Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!
Fernando Pessoa
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Culturalmente, os jovens e adolescentes em geral são identificados como rebeldes, poderosos e não cônscios de sua fragilidade como seres humanos, ainda que somente considerados como corpos, enquanto organismos vivos. Seres humanos são frágeis, e devem assumir sua fragilidade para bem viver, ou para viver apenas. Não é o caso dos suicidas, em particular o jovem ou o adolescente, que talvez prefira destruir a si mesmo, o seu olhar o mundo, o seu viver, para ingenuamente apagar também tudo que existe e que o magoa e o faz sofrer.
Há pouco tempo, um deles, pressionado pela pobreza, por ser negro e por ser homossexual cometeu suicídio a caminho da Escola. Poderia ser conhecido por suas paixões a literatura e a música, pois lia muito e tocava violoncelo, mas era visto pelo tríplice estigma de pobre, negro e gay, e sofria bullying no Colégio particular que frequentava. Era bolsista por seu esforço e competência nos estudos. Comemorou muito sua entrada nessa Escola, a mesma que o irmão mais velho frequentou, também como bolsista, mas com o tempo foi perdendo a alegria e só andava com outros bolsistas, sempre com um sorriso na boca, mas nunca o suficiente para afastar os comentários maldosos, as agressões, enfim a discriminação diária.
Reclamou com os pais e o irmão da sua situação e dos problemas, mas sua mãe e seu pai trabalhadores pobres, sempre insistiram que ele deveria ter boa educação para superar as adversidades, e o Colégio era muito bom. Assim, mesmo acordando sem nenhuma vontade de ir ao Colégio, aquela manhã, depois do café, saiu mais cedo, pois pretendia passar na biblioteca, antes do início das aulas, e se dirigiu para lá.
Algum tempo depois, sua mãe recebeu, no seu local do trabalho o telefonema do Colégio comunicando o seu suicídio e só assim se deu conta da mensagem que o garoto de 14 anos havia lhe enviado, dizendo que iria tirar sua própria vida. Essa mensagem a mãe não teve coragem de ouvir inteira ainda.
A notícia foi publicada por uma Revista e depois repercutiu na imprensa diária. As reações foram as mais variadas, como acontece sempre na nossa sociedade que vive a polarização. Chegaram a reclamar da própria imprensa pela divulgação do ocorrido.
Dar conhecimento ao público em geral de um problema como o suicídio, do meu ponto de vista, é um serviço que a imprensa presta, se, como foi nesse caso, os veículos tiverem cuidado e não fizerem abordagens sensacionalistas
O fato é que o suicídio de adolescentes e jovens corresponde, segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, a quarta principal causa de morte (entre 15 e 29 anos). No Brasil, segundo dados oficiais recentes essas taxas estão em alta, e já correspondem à terceira maior causa de morte, na população entre 15 e 19 anos. Mais grave ainda é que o aumento entre os jovens não é uma tendência passageira, pois vem ocorrendo há mais de vinte anos, no país, e vai na contramão do crescimento dos números mundiais.
São consequências de multifatores como a pobreza, uso de drogas, depressão, solidão, agravados pelo uso excessivo das telas, a incerteza quanto ao futuro, a falta de esperança. e as situações de bullying e exclusão como ocorreu possivelmente com o jovem bolsista aqui descrito.
Os jovens podem dar sinais ou não, de que poderão praticar o ato, e isso aumenta a responsabilidade dos adultos seja do ponto de vista individual, seja encorajando políticas sociais e de saúde pública que procurem atacar as causas que estimulam essa atitude.
A rede de convivência que envolve um determinado adolescente ou jovem pode procurar manter uma conversa franca, que transmita confiança para uma abertura de diálogo. Se os pais, amigos e Escolas não se sentirem capacitados existem várias alternativas de suporte, como o Centro de Valorização da Vida (CVV), o “Pode falar”, chat da UNICEF, ou a unidade mais próxima da Rede de Atenção Psicossocial do Ministério da Saúde. Essas alternativas precisam ser mais bem divulgadas. Nesse caso a informação é serviço público imprescindível.
De qualquer forma a solidão não é a melhor conselheira, nem as cobranças, nem muito menos as punições sejam elas quais forem. Quem esteja preste a recorrer a essa atitude extrema precisa de afeto, carinho, compreensão e encaminhamento.
Por que somos tão tocados por atos suicidas em geral e especialmente de adolescentes e jovens?
Talvez por solidariedade com os entes queridos que ficaram sofrendo, talvez pela vida perdida tão precocemente, com todas as possibilidades negadas já no seu início, ou talvez porque nos sintamos, de uma forma ou de outra, culpados pelas nossas atitudes, ou omissões, ou simplesmente por continuar a resistir vivendo, apesar das adversidades, por amor a vida ou por acomodação, por bravura, coragem ou covardia.
No caso dessa história em particular o esforço do jovem em superar toda a sua situação socioeconômica e cultural, o seu “lugar”, como pobre, negro e homossexual, em um ambiente hostil, acima de tudo preconceituoso, não foi suficiente; O esforço possibilitou uma bolsa de estudos em colégio caro, para suas posses, mas não garantiu a sua aceitação pelos pares, e ele acabou virando motivo de chacota, de zoação e de atitudes violentas.
Será que o garoto sofrendo bullying, na Escola que ele tanto lutou para cursar, vendo o que existia no seu mundo, através do olhar e de seus outros sentidos, preferiu deixar de existir, de ver, de ser, e assim apagar todos nós da sua não-vida, e nos abandonar em nosso mundo injusto e insuportável para gente sensível? É uma possibilidade, talvez vinda de alguém que negou a si mesmo, as suas próprias possibilidades. E nos remete aos versos de Fernando Pessoa em epígrafe:
“...Existe tudo porque existo.
Há porque vemos...”