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As pesquisas e notícias de jornais sobre Tempo Livre e Lazer, na atualidade, têm focado, entre outros aspectos, na imprecisão da linha divisória entre trabalho e lazer, e no que significaria a redução da jornada de trabalho na vida das pessoas, incluindo o descanso e a diversão, que propiciariam condições de desenvolvimento social e pessoal, de forma mais equilibrada, entre a população.

Sempre defendi a redução da jornada de trabalho como forma de humanizar o lazer das pessoas, e ela é uma medida necessária e que se torna cada vez mais premente, mas não é possível ignorar que vivemos em um modo de produção capitalista que visa o lucro. Há, portanto, barreiras de elasticidade na escala do tempo de trabalho, estabelecedoras de limites, que mesmo quando ultrapassados não se deve ignorar que o modo de produção permanece o mesmo. Brechas são bem-vindas e devem ser aproveitadas, mas não de maneira romântica ou simplória.

O uso do tempo é uma questão cultural e depende de uma série de circunstâncias para as quais a desigualdade social, de renda, e de gênero, só para citar algumas, são entraves que não podem ser ignorados. É flagrante a desigualdade de Tempo livre entre homens e mulheres, por exemplo, e isso se verifica mesmo nas últimas pesquisas publicadas,

Apenas citando a desigualdade de renda é preciso considerar que ela existe no nosso país, com um salário-mínimo que não atende as necessidades da população trabalhadora, e que também em grande parte nem recebe esse mínimo insuficiente. O endividamento e a inadimplência escancaram essa realidade, além das cenas que vemos no cotidiano.

As pesquisas demonstram que a população anseia pela redução da jornada de trabalho sem cortes de salários, para descansar, atividades de lazer em geral, e para ter mais tempo com a família. Mas, sempre é bom lembrar que entre a vontade e a realização, o querer e o fazer, existe uma distância enorme.

Reduzir a jornada de trabalho, que é bem-vinda, não significa aumento automático de tempo livre, para uma parcela significativa, que precisa de dinheiro para sobreviver e que buscará formas de aumentar sua renda. A reivindicação por um salário-mínimo justo necessita de reforço de luta da classe trabalhadora, e para que ele seja observado de fato nas relações de trabalho.

Mas isso depende, entre outros fatores de um movimento sindical reivindicatório e forte, e quanto a isso atualmente estamos enfraquecidos. Os movimentos sociais têm importante papel nesse sentido. A escala 6x1, que deveria estar há muito superada, não raro é vista e apresentada à população como uma dádiva concedida ao povo, apesar da negação de alguns setores da sociedade brasileira. Já há experiências bem-sucedidas sendo feitas e efetivadas da escala 4x3, em países mundo afora, mas é preciso não esquecer que a realidade socioeconômica é bastante diferente da nossa, a começar pelo salário-mínimo, e o seu valor de compra.

Os idosos, que deveriam dispor de mais Tempo disponível para si mesmos, são obrigados a trabalhar para complementar a renda para suas necessidades, já que os proventos das aposentadorias são parcos e insuficientes. Sem contar as necessidades de planos de saúde e de medicamentos com valores muito altos, com escalada ascendente de acordo com o avançar da idade. E quando se fala de aumento de salário quase sempre se cita que a aposentadoria não deveria ser reajustada nem mesmo pelo percentual usado para o mínimo. Absurdo repetido quando o assunto vem à baila. Os idosos são exemplos vivos, até quando os proventos permitirem, de que mais tempo disponível, pura e simplesmente, não significa fruição de lazer, participação cultural e desenvolvimento pessoal e social.

Quanto à fluidez entre o tempo de trabalho e o tempo livre, que sempre preferi considerar como tempo disponível, pois na nossa sociedade tempo algum é livre dos condicionamentos socioculturais, ela também não significa melhoras no usufruto do lazer, ou mesmo nas esferas de obrigações familiares, políticas e sociais. Se isso acontecesse não haveria tanta gente estressada, com síndromes as mais variadas, e o desalento que atinge principalmente os jovens, ao lidarem com a falta de motivação derivada de muitas causas.

E preciso que façamos a distinção entre Tempo disponível efetivamente fruído como lazer, e Tempo disponível suposto, sujeito aos valores da performance, e guiado pela disponibilidade que nos é imposta para o consumo, o trabalho intermitente, e a viver não com, mas pelas plataformas com as quais convivemos diariamente.

Assim, no Tempo disponível suposto vamos a shows, viajamos, visitamos exposições, quando o dinheiro permite, ou frequentamos festas, vamos a parques, curtimos a praia, passeamos na cidade etc., mas muito mais que a fruição, o prazer, o divertir, o descansar, grande parte de nós está preocupada em performar em fotos e vídeos, que serão postados nas redes sociais, mandados a amigos pelo whatsapp e outros aplicativos.

A fruição é esmagada pela necessidade de construção de uma personalidade a ser compartilhada, não raro falsas, e muitas vezes para forjar um engajamento muito frágil em causas políticas, sociais, ou, para enriquecer cum currículo profissional. Pode também significar um compartilhamento para mitigar a solidão da carência de gente, de pessoas, pela dificuldade de estabelecermos os contatos face-a-face, como ocorre nos “namoros” online, muitas vezes com perfis também falsos.

Até mesmo o streaming, que nos coloca a possibilidade do lazer em casa, é feito da perspectiva da aceleração. Filmes, não raro, são vistos pulando partes, com pressa de se chegar ao final e séries são consumidas à exaustão, em maratonas aceleradas e desgastantes. Os likes nas postagens na internet, geralmente, são mecânicos e apressados, para dizer que gostamos ou não de algo, com visualizações de frações de segundos. E muitas vezes as opiniões e gostos são formados a partir dessa visão limitada.

Tudo é apressado, sem tempo para assimilação, para análise e assim se formam opiniões rasas, sentimentos vazios, laços superficiais.

Essa já é uma questão para os pesquisadores das ciências sociais, da psicologia e da área interdisciplinar dos estudos do lazer pesquisarem, e mais que isso oferecerem soluções para que os profissionais da área de educação, e mais especificamente da educação para o lazer, animadores socioculturais, recreadores, professores de educação física, turismólogos, e outros tantos, possam trabalhar de modo efetivo. Não basta apontar a fluidez entre o tempo de trabalho e tempo de lazer; é preciso entender como isso não tem se revertido em bem-estar para a população e, ao contrário, tem contribuído para piorar a qualidade de vida, com aumento de obrigações profissionais, cobrança por desempenho até mesmo fora do trabalho, e desalento, ansiedade, depressão e esgotamento físico e mental.

*Crônica desenvolvida a partir do texto de Michelle PrazeresA gente não vai mais 'veranear'? Era uma vez o passatempo e o tempo livre, publicado no jornal Folha de São Paulo, no dia 26/04/2026