Resumo

Este ensaio teórico tem por objetivo analisar criticamente o cenário das escolas de futebol enquanto subcampos do campo esportivo, à luz da análise estrutural de Pierre Bourdieu. A partir de conceitos como campo, habitus, capital e doxa, argumenta-se que as práticas pedagógicas predominantes nesse contexto são sustentadas por uma racionalidade técnica de base newton-cartesiana, que se manifesta em abordagens didáticas unidimensionais, centradas no tecnicismo, na autoridade do treinador e na reprodução de métodos tradicionais. Identifica-se que tal racionalidade é legitimada por capitais econômico, social, cultural e simbólico que operam de forma hierárquica e excludente. Em contraposição, discute-se o potencial do jogo como fenômeno polissêmico e do ambiente lúdico como espaço de resistência e de construção de saberes alternativos, capazes de tencionar a doxa vigente. A Pedagogia do Jogo é apresentada como proposta que rompe com o modelo reprodutivista, ao reconhecer a autonomia, os saberes culturais e a subjetividade dos sujeitos envolvidos, especialmente jogadores e jogadoras. Com base em referências da epistemologia crítica, da educação libertadora e da ecologia dos saberes, o artigo sustenta que é possível promover a ressignificação das práticas pedagógicas no ensino do futebol, superando a lógica da especialização precoce e do rendimento imediato. Assim, propõe-se uma práxis voltada à emancipação dos sujeitos, ao diálogo entre saberes e à valorização de contextos informais e culturais como elementos constitutivos da formação esportiva.

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