Resumo
O desempenho esportivo é um fenômeno multifatorial, resultante da interação entre fatores fisiológicos, perceptivos e emocionais. Apesar do aumento da participação feminina no esporte competitivo, atletas do sexo feminino permanecem sub-representadas na literatura, especialmente em estudos longitudinais que investiguem a influência do ciclo menstrual (CM) sobre o desempenho e variáveis psicofisiológicas em modalidades de endurance, como a natação. Objetivo: Investigar longitudinalmente a influência das fases do ciclo menstrual sobre o desempenho esportivo e variáveis psicofisiológicas de jovens nadadoras durante um período de preparação competitiva, bem como realizar uma análise sexo-específica comparativa com nadadores do sexo masculino. Métodos: Estudo observacional, analítico e longitudinal, conduzido ao longo de 16 semanas, com 21 atletas de natação (10 mulheres e 11 homens), com nível competitivo do estadual ao internacional. O desempenho foi avaliado pela velocidade de nado registrada na série principal das sessões, categorizada em zonas de intensidade (ZI–ZV). As variáveis psicofisiológicas incluíram percepção subjetiva de esforço (PSE), percepção subjetiva de recuperação (PSR), qualidade do sono (PSQI), estados afetivos (sensação e ativação) e preferência/tolerância à intensidade do exercício (PRETIE-Q). O CM foi inicialmente caracterizado por dosagens hormonais (estradiol e progesterona) e posteriormente monitorado por estimativa das fases, testes de ovulação e rastreamento de sintomas pré-menstruais (PSST). As análises estatísticas envolveram modelos mistos, testes não paramétricos para medidas repetidas, correlações de Spearman e tamanhos de efeito, adotando-se nível de significância de 5%. Resultados: Nas atletas do sexo feminino, a velocidade de nado variou significativamente entre as fases do CM nas zonas III (H(4)=95,17; p<0,001; ε²=0,05) e IV (H(4)=65,21; p<0,001; ε²=0,03), com redução consistente do desempenho na fase 4 em comparação às demais fases. Concomitantemente, a PSE foi maior na fase 4 nas zonas III (H(4)=199,4; p<0,001; ε²=0,03) e IV (H(4)=279,0; p<0,001; ε²=0,04), enquanto a PSR foi menor nessas mesmas zonas (p≤0,002). A qualidade do sono apresentou piora significativa na fase 4 (H=12,97; p<0,001; η²=0,06), caracterizada por menor duração e eficiência. Os estados afetivos deslocaram-se para quadrantes mais negativos nessa fase, especialmente em intensidades elevadas. Em contraste, os atletas do sexo masculino não apresentaram padrão consistente de variação da velocidade de nado ao longo das fases equivalentes, apesar de oscilações pontuais em variáveis psicofisiológicas. Conclusão: O desempenho esportivo de atletas do sexo feminino é modulado por alterações psicofisiológicas associadas às fases do CM. A fase 4 mostrou-se consistentemente relacionada a pior qualidade do sono, maior PSE, menor PSR e estados afetivos mais negativos, resultando em redução da velocidade de nado durante sessões de intensidade intermediária (zonas III e IV), contexto no qual os efeitos do CM foram mais evidentes. A análise sexo-específica indica menor variabilidade psicofisioló