Morrer de tristeza ou de felicidade? Moderação para continuar a viver.
Integra
A mulher, de sessenta e cinco anos, já vinha sentindo dores no peito há alguns meses, mas os exames não denunciaram alterações cardíacas dignas de preocupações. A situação só piorou mesmo com a emoção provocada pelo casamento da filha, da qual era bem próxima, e ela começou a sentir também cansaço e falta de ar nas atividades físicas que realizava regularmente. Novo eletrocardiograma mostrou alterações mais preocupantes. E aí vieram novos exames, e diagnósticos envolvendo ventrículos, ejeção, exames de sangue reveladores, e termos que para um leigo como eu, não tem qualquer significado, mas que implicam negativamente no funcionamento do coração. A medicação adequada fez com que o quadro de saúde da mulher apresentasse recuperação e agora, já novamente em casa, depois de internações hospitalares, está pronta para novas emoções.
O elemento desencadeador da piora do quadro cardíaco foi a forte emoção de felicidade com a realização do sonho de casar a filha. Trata-se da cardiomiopatia de “Takotsubo”, nesse caso desencadeada por emoções positivas intensas, mas que também pode ser provocada por emoções negativas. São conhecidas popularmente como síndromes do coração feliz, e do coração partido.
A síndrome tem esse nome, porque foi descrita pela primeira vez no Japão, onde a palavra Takotsubo significa armadilha para polvo, pois o coração acometido por ela, fica com a forma parecida com a do instrumento de pesca
Ela não é inofensiva, podendo ter consequências, se não diagnosticada e tratada a tempo. As estatísticas demonstram que responde por um percentual muito baixo entre as síndromes coronarianas, embora esse número possa ser influenciado por um elevado patamar de subnotificações. E como era de se esperar o coração partido supera em muito os danos provocados pelo coração feliz. As artes não mentem também nesse aspecto, com romances de amores trágicos, músicas “de fossa”, e poemas lúgubres.
Coração feliz a gente vive intensamente e quase não nota. Agora coração partido dói muito, incomoda, e aí não dá para ignorar e a gente sucumbe, vai ao fundo do poço, até se recuperar, o que leva um tempo bem maior do que a felicidade, que é fugaz.
Podemos “Morrer de Felicidade”, com a Síndrome do Coração Feliz, subtipo raro de Tokotsubo, quando somos atingidos intensamente por emoções positivas inesperadas, ou muito aguardadas, como festas de casamentos, nascimentos de filhos, ganhar prêmios etc. O corpo sente a descarga grande de hormônios de estresse e excitação, pelo cérebro, atingindo o coração de forma que pode ser muito perigosa.
E podemos “Morrer de Tristeza”, com a Síndrome do Coração Partido, também uma cardiomiopatia de Takotsubo, que ocorre com mais frequência, com um choque emocional muito forte, como o luto motivado por perda grave, liberando muitos hormônios de estresse, a exemplo da adrenalina. Eles deixam o coração atordoado, inchado, simulando um infarto, mesmo sem que entupimentos de veias tenham sido detectados, e podem ser fatais, principalmente para idosos ou pessoas mais “fracas”.
Nos dois casos emoções fortes podem ter impactos reais diretamente em nossos corpos. Não se morre de tristeza nem de felicidade, mas do grau elevado de intensidade delas ou de qualquer outro sentimento. As síndromes é que são fatais.
Se formos mais dramáticos, sofredores contumazes, que introjetam sentimentos negativos provocados por emoções dolorosas, ou se gostarmos de vivenciar o prazer de notícias positivas, e nos alegrarmos e inebriarmos com elas, temos que ir com calma, sermos menos intensos, mais leves, relativizarmos mais, em nome do prazer, da longevidade e da qualidade de vida, e até para nos mantermos vivos, sem grandes surpresas no coração.