Morte: Velórios – imaginários ou reais – em Vida.
Integra
Há dois anos, Tiago um brasileiro, do Centro-Oeste, então com 44 anos, foi diagnosticado com câncer, e não se desesperou, fazendo os tratamentos necessários e vivendo da melhor maneira possível, com aventuras, realizando desejos, e aproveitando a vida ao máximo. E, apesar de ter que conviver com algumas limitações provocadas pela doença, não se abateu com a perspectiva da morte. Até já programou seu velório, que deverá ser uma festa com muita alegria. Aos jornais tem declarado que entendeu que vai morrer uma vez só. “E, até isso acontecer, eu vou viver, vou viver bem e vou ser feliz. É o que venho fazendo."
Foi no velório do seu pai, onde os amigos se reuniram para celebrar a vida e as histórias do defunto, que ele tomou a decisão de fazer o seu em vida, pois notou que o clima de festa e amizade naquela ocasião tinha uma ausência muito importante – a do pai. Assim, quer estar participando do seu próprio velório, e compartilhar a festa. E se não morrer logo depois, pretende fazer novos velórios a cada seis meses de vida que tiver.
Hoje, Tiago repete para quem quiser ouvir que “a morte é um detalhe. O importante é a vida que eu levo, a vida que eu levei e a vida que vou levar até o dia em que eu não puder mais. Eu tive e tenho uma vida boa. Sou um cara feliz. Tenho câncer, mas o câncer não me tem."
Ele não é o único que planejou e quer viver o próprio velório. Muitas pessoas sonham, ou, dependendo do ponto de vista, têm pesadelos com a própria morte e com o funeral.
Os preparativos para a morte podem incluir desde a elaboração de testamento, que previne discussões e desgastes sobre a divisão dos bens, até a personalização da despedida, com escolha de músicas, caixões, túmulos, rituais etc.), poupando familiares e amigos de decisões em momentos de dor. Os desejos são preservados até o além-morte, sem interferências notáveis.
Se recorrermos à História encontraremos figuras que se destacaram nesse particular, como Alexandre – O Grande, o escritor russo Nikolai Gogol, e o artista Salvador Dali.
Agora, encenar o próprio velório e vivenciá-lo como o brasileiro Tiago, não é exclusividade dele. Um excêntrico comerciante americano, Lorde Timothy Dexter também fez isso, séculos atrás, e de forma grandiosa, com milhares de pessoas contratadas, e até uma briga que levou ao espancamento da sua esposa, que segundo ele não estava chorando tanto quanto ele gostaria,
A ficção é pródiga em relatos dessa natureza. Temos muitos exemplos mundo a fora e no nosso país. Entre nós, para mim, se destacam duas obras. A peça “A falecida’, de Nelson Rodrigues, que virou filme, dirigido por Leon Hirszman, primeira protagonista na telona de Fernanda Montenegro, onde a personagem principal economiza para ter um enterro grandioso, sua grande obsessão; e o Romance “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, em que o velório não é planejado, mas recordado pelo “defunto autor”, incluindo detalhes cômicos sobre o comportamento do público presente.
Sonhos ou pesadelos são noticiados, vez ou outra, pela Imprensa. São múltiplas as interpretações possíveis para essas ocorrências, e se procurarmos as encontraremos com as mais variadas facetas, de mau agouro, até o anúncio de um novo recomeço, encerramento de um ciclo; a possibilidade de encarar a vida, a partir de novas perspectivas; renascimento.
No caso de Tiago, que motivou este escrito, parece que sua morte anunciada, que geralmente é muito temida, despertou a necessidade de aproveitar cada minuto restante, como se fosse o último, com muito prazer, realizações e alegria, compartilhados com outras pessoas. O que deveria acontecer com todos nós, pois nossa morte já é sabida desde o instante em que nascemos.