Motricidade Humana: o itinerário de um conceito

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Parte de Filosofia do Desporto . páginas 20

Resumo

Quando, em Outubro de 1968, pisei, pela primeira vez, o chão frio e lajeado do INEF (Instituto Nacional de Educação Física), para trabalhar no Centro de Documentação e Informação do Fundo de Fomento do Desporto, o dualismo antropológico cartesiano dominava (os críticos eram poucos), nesta Escola, no meio de fervorosos admiradores. Demais, a Educação Física já era o resultado de longos caminhos percorridos, em Portugal, por nobres espíritos (como esquecer os Doutores Leal d’Oliveira e Celestino Marques Pereira?), em laboriosa evolução intelectual. No Decreto-Lei nº. 30279, de 23 de Janeiro de 1940, que criava o INEF, pode ler-se, no seu Capítulo I, que ele se destinava “a estimular e orientar, dentro da missão cooperadora do Estado com a família e no plano da educação integral estabelecido pela Constituição, o revigoramento físico da população portuguesa”, num “regime de efectiva cooperação entre o INEF e a Mocidade Portuguesa”. A Educação Física ocupava-se das qualidades físicas – o “erro de Descartes” era a sua filosofia predominante. Na Proposta de Lei, de 25 de Fevereiro de 1939, apresentada à Assembleia Nacional, para a criação do INEF português, define-se, assim, a Educação Física:“É uma acção intencional que o homem, devidamente dirigido, exerce sobre si mesmo, pela prática racional sistemática dos exercícios físicos – ginástica, jogos, desportos – metódica e conscientemente executados, como complemento essencial dos restantes meios educativos e higiénicos e tendo como objectivos imediatos a saúde, beleza, força, resistência, disciplina, prontidão, espírito de solidariedade, optimismo, confiança em si, domínio de si próprio, coragem, prudência, carácter, personalidade, tornando o corpo o digno instrumento de uma vontade esclarecida”. Como se vê, uma antropagogia, ou teoria da formação do ser humano, assente no corpo- instrumento e lembrando a cartesiana dicotomia. Segundo o Eduardo Lourenço, estudado por um dos grandes ensaístas da nossa história literária, Miguel Real, o modernismo de Pessoa, Sá-Carneiro e Almada Negreiros retrata o Portugal da Primeira República que, no entender de Pessoa, precisava de um indisciplinador. “Como na obra de Garrett, trata-se de fazer ressurgir Portugal de um estado decadente e passivo, que o poema épico Mensagem cumprirá, presumindo ter chegado a Hora. Em resposta, Portugal e a sua história erigiram o regime político  do Estado Novo, isto é, o longo reino de infantilização sistemática da imagem da pátria, o triunfo do folclorismo, da menoridade cívica obrigatória, do paternalismo implacável”(cfr. Miguel Real, Eduardo Lourenço e a Cultura Portuguesa, Quidnovi, Matosinhos, 2008, p.78). Em ambiente de “menoridade cívica obrigatória” e em efetiva cooperação com a Mocidade Portuguesa, não surpreende que, até no INEF, tenha irrompido, nas décadas de 40 e 50, uma antipatia insopitável pela prática desportiva, em favor de uma ginástica dita “médica” – que afinal de médica bem pouco tinha…

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