Na pesquisa da vida: Humildade sim, subserviência não!
Integra
“...
A madureza sabe o preço exato
Dos amores, dos ócios, dos quebrantos,
E nada pode contra sua ciência”.
“A ingaia ciência” – Carlos Drummond de Andrade
Nas minhas primeiras aulas sobre metodologia da pesquisa, já para estudantes de graduação, sempre iniciava dizendo que a atividade requer humildade, pois a qualquer momento nossos esforços para entender algo poderia ser suplantado por teorias que questionassem o resultado do nosso trabalho. E que nem por isso deveríamos temer as reações, pois se trata de um processo natural, uma vez que o conhecimento é sistemático, e só tem sentido quando comunicado para que possa ser testado, confirmado ou contestado.
Minha atitude era a mesma quando iniciava um processo de orientação de uma monografia de graduação, dissertação de mestrado, ou tese de doutorado
Entretanto, em todas essas ocasiões, procurava deixar claro a todos que ser humilde não quer dizer ser subserviente. A primeira é considerada uma virtude, ao reconhecer que cada pessoa deve ser consciente das suas limitações, e que se precisa respeitar o outro, enquanto a segunda é um procedimento de sujeição ao outro, o que leva a autoanulação a fim de agradá-lo. Perde-se o valor próprio, nega-se o esforço perpetrado para o entendimento do problema, suas possíveis contribuições mesmo que não definitivas, inclusive para que o outro tenha sucesso nas suas “conclusões”. E a segunda mostra a dependência da aprovação alheia a qualquer custo, o que leva a inferiorização, ou negação não só das suas “descobertas”, mas a negação de si mesmo.
Hoje, mais velho, creio que isso se aplica a vida como um todo, e não somente a pesquisa “stricto senso”, pois o que é a vida afinal senão uma modalidade de pesquisa sobre coisas e pessoas, incluindo nós mesmos? É uma tarefa constante de procurar entender quem somos, quem são os outros, e o mundo com o que nos relacionamos, real ou imaginário.
Não raro chegamos a conclusões erradas “na análise dos dados e na interpretação de resultados”, incluindo amizades, amores, relações de trabalho, familiares, concepções políticas, religiosas e de ordem moral em geral. É preciso reconhecer os erros, com humildade, mas com autoestima e consideração consigo mesmo - afinal é natural errar no meio do caminho, e seguir em frente de cabeça erguida, sem subserviência, continuando a pesquisa da vida, para vive-la intensamente, com qualidade, até o seu final. O amor-próprio não depende de aprovação ou da diminuição de quem você é. Pode ser visto como fruto da lucidez e não dos desvarios de uma mente.
Nossa existência, a “experiencia de viver”, pode ser vista como pesquisa, curiosidade, investigação constante, experimentação e aprendizado. Sem verdades acabadas, sem medo de ser contestado, e ficar pronto para mudar de opinião, encarando essa mudança como sinal de inteligência e não de constrangimento.
Que o nosso legado, por menor ou melhor que seja, no nosso trabalho e na nossa trajetória em geral, seja aceito, desfeito, modificado, negado, como um processo de investigação do mundo e de nós mesmos. Porém, ainda que imperfeito e contestado, possa ser nosso, sem concessões de qualquer espécie que nos diminuam enquanto pessoas, enquanto gente.
Quem sabe assim, ao chegarmos à “madureza”, com a proximidade da morte - o fim definitivo da pesquisa-, poderíamos transformar a “ingaia” ciência do poeta, em epígrafe, na vida como “gaia” ciência, de Nietzsche – a busca do conhecimento de forma alegre, livre e afirmativa da vida.