Integra
Nesta fase da vida amarra-me à escrita o imperativo de abrir a comporta das emoções. Apraz-me evocar a amizade, a solidariedade e a gratidão. Não para exibir os vocábulos, mas para vivificar os estados de alma que lhes subjazem. Assim, digo a palavra mágica ‘Brasil’, encerrando nela tantos e tão queridos amigos, tantas e tão arrebatadoras ânsias de ver cumprida a utopia do Padre Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva.
1.A crónica de Pêro Vaz de Caminha, conhecido como ‘Carta sobre o achamento do Brasil’, é um dos mais notáveis textos da literatura dos Descobrimentos. As vinte e sete páginas ensinam a ver com o olhar limpo de preconceitos. Com elas aprendemos a amar o Brasil, desde que o encontramos.
O escrivão olhou em redor e, como mestre exímio da balança da moeda na cidade do Porto, avaliou bem o presente e previu o futuro, concluindo que a “gente é boa e de boa simplicidade”. Miguel Torga lê no relato “um juramento português, de amor e fidelidade eternos à Terra de Santa Cruz” e às suas gentes; e incitou a encarar o Brasil como uma causa e bandeira para nos mantermos acordados.
Valho-me das citações para afirmar e explicar o que de explicações não carece: o amor parelho ao Brasil e Portugal, a dois modos de uma realidade concitadora de identificação e cumplicidade.
2.A minha Pátria é a de Pessoa: a língua portuguesa, quer a feita áspera e dura na defesa porfiadas das fronteiras contra as arremetidas castelhanas e francesas, quer a adoçada pelo açúcar brasileiro, ao gosto de Eça de Queirós e Machado de Assis. É a língua da saudade, da fé, da dor e das lágrimas, aberta, convidativa, franca e signatária de pactos de cordialidade. É essa fala que nos fez e nós fizemos abundante em sábios e génios do coração num e noutro lado do Atlântico. A minha pátria é “o mundo que o Português criou”, no dizer de Gilberto Freyre.
3.A hora é do Brasil. São dele a vez e missão de dobrar o Cabo Bojador e o das Tormentas. De responder com esperança à necessidade ontológica que dela temos. De assumir e levar por diante o estandarte do império da luz, da música e poesia da convivialidade, da fraternidade e universalidade. Esse é o destino do vento lusitano, o fado à desgarrada derramado pelas sete partidas da Terra.
O Brasil possui a chave do berço de uma nova humanidade. O sonho precisa de ser dito e resistir aos dentes cariados dos rafeiros que mordem a transcendência desse desígnio e são lambe-cus do canzarrão que defeca no mundo. Juntemo-nos à crença e visão de Nélson Rodrigues: não vem longe o dia em que “o nome do Brasil será gritado, como um formidável berro em flor”. E declamemos os versos de Cassiano Ricardo:
“Ó caro amigo, e vós também, ó poetas,
filósofos, reformadores, revolucionários, profetas,
que não cessais de proclamar, na vossa inquietação,
que só a bondade salvará o mundo:
Um pouco do Brasil no coração dos homens
não é uma solução? um bem à angústia que vos cansa?
O Brasil ainda é uma ilha - uma enorme ilha verde -
no mapa-mundi da Desesperança.”
22.04.2026
Jorge Bento