Integra

Epígrafe e Prólogo

“...Pois o Leandro — não sei que intrigante malvado inventou que ele... que ele, com perdão da palavra, andava com a patroa, uma senhora muito branca, que parecia uma santa. O que houve, se houve alguma coisa, Deus sabe.... Mas, inocente ou não, o caso foi que o pobre Leandro acabou no tronco, lanhado a chicote. Uma novena de martírio, "lepte ! lepte !" E pimenta em cima... Morreu. “.... Depois que morreu, foi moqueado. — ? ? ? — Pois então! Moqueado, sim, como um bugio. E comido, dizem. Penduraram-lhe a carne na dispensa e todos os dias vinha à mesa um pedacinho dele, para a patroa comer... A coitada..."

..........

Como a morta-viva permanecesse imóvel, o urutú humano repetiu o convite, em voz baixa, num tom cortante de ferocidade glacial. _."Sirva-se, faça o favor!”  E fisgando, ele mesmo, a nojenta coisa, colocou-a gentilmente no prato da mulher. Novas tremuras agitaram a mártir. Seu rosto macilento contorceu-se em esgares e repuxos nervosos, como se o tocasse a corrente elétrica. Ergueu a cabeça, dilatou para mim as pupilas vítreas, e ficou assim. uns instantes, como à espera dum milagre impossível. Naqueles olhos de desvario li o mais pungente grito de socorro que jamais a aflição humana calou” ...

“O Bugio moqueado” – Monteiro Lobato

 

” ...Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira...A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar à carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue.”

............

“...Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver; mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.” ...

“A causa secreta” – Machado de Assis

 

PRÓLOGO

Não é sempre que os escritores que amamos saem do seu lugar de conforto habitual e enveredam para um caminho mais sombrio, e o maior de todos talvez seja a vingança com requintes cruéis de maldade.

Ainda era um jovem leitor quando me deparei com os contos de Machado e Lobato, dos quais separei os trechos em epígrafe neste escrito. Pela primeira vez, vi esses sentimentos considerados nada nobres ganharem detalhes nas palavras precisas desses mestres. E isso me marcou muito.

Depois, na vida acadêmica, verifiquei que os dois contos, além de outros textos da nossa literatura, são referências nas discussões teóricas sobre vingança e crueldade, sendo objetos de publicação de artigos em revistas especializadas em Letras e Ciências Humanas em geral.

Não, essa não é a pretensão deste livro. Nada de rigor acadêmico, só mesmo observação da vida cotidiana, com emoção e vontade de entender os sentimentos brutos, tal como se apresentam aos nossos olhos, sem tratamento metodológico, hipóteses ou interpretações lógicas.

Mais tarde, vivendo, percebi que podemos manifestar todo tipo de sentimentos, nobres ou não, nas nossas relações com o mundo, e até mesmo com as pessoas que amamos. Dizemos e fazemos coisas que nunca pensávamos que faríamos, atos dos quais nos arrependemos ou saboreamos por longo tempo, mas que ferem outros, antes de nos ferirem.

Não são apenas criminosos que cometem ações repugnáveis. Elas estão em nós, e podem se manifestar quando somos provocados e não estamos passando por situações de equilíbrio emocional. Não somos criminosos por natureza ou por nossos valores, antes dos crimes serem perpetrados. Nos tornamos assim pelo que nos cerca, o momento que vivemos, as provocações que sofremos, e mesmo tendo rígida formação moral ficamos frágeis e respondemos as vezes da pior maneira possível, inconcebível em outras circunstâncias. Isso não nos exime de responsabilidade pelo dito e pelo feito.

Assim, não busco perdão para nossos personagens, quero apenas entendê-los, nos seus sentimentos tão diferenciados do que eram suas vidas que corriam comuns no cotidiano, antes de se relacionarem, e de terem se cruzado pelo acaso.  Procurei, mas não sei se consegui, não tomar partido deste ou daquele ser humano, que imitei da realidade, pela minha imaginação.

Todos eles se consideram donos dos seus narizes, têm instrução, atendimento de suas “necessidades básicas”, como educação, moradia, saúde, alimentação Todos    eles estão em busca do amor, esse imperativo sem o qual não nos sentimos completos, e que nos faz buscar ter significado para o outro, na vida em geral e sobretudo nos relacionamentos afetivos. Nesse sentido são carentes, como todos nós humanos somos, buscando um sentido para suas vidas. Vidas que às vezes se tornam mesquinhas e cruéis, ao máximo, à procura de pertencimento, de um sentimento de grandeza maior, e se perdem em atos abomináveis e repugnantes.

Dentro de cada um convivem sensações e emoções que não são de uma única espécie. Coabitam em conflito ou em harmonia, e se refletem nos nossos comportamentos, que não raro surpreendem, pelo inusitado e pelo inesperado.

Vamos à história, as vezes com ares tenebrosos, fruto do cotidiano, da rotina de pessoas comuns, que se relacionam como podem, na sua aventura da vida.

Do romance O CRIME DA PEDRA FURADA, EDITORA MERCADO DE LETRAS, NO PRELO