Resumo


 

Integra

Desde muito cedo percebi que minhas habilidades intelectuais estavam mais voltadas para as ciências humanas. Ainda assim tive professores de matemática que me encantavam por conseguirem explicar a concretude de uma abstração como ax²+bx+c=0. As teorias da física eram ainda mais encantadoras. Talvez um dos maiores encantos tenha sido descobrir o significado de V0, a força para se colocar algo em movimento. 

Não sou capaz de resolver qualquer problema que necessite de uma fórmula para chegar a um resultado com esses conceitos. Entretanto, me julgo capaz de olhar para as coisas do mundo e ver ali reminiscências dos conhecimentos que os inesquecíveis professores dessas disciplinas inculcaram em mim.

Por exemplo, o velho Newton e suas leis, que fazem lembrar que o movimento é dado não apenas pela superação da inércia. Mas, que energia é a capacidade de realizar trabalho. E a força resultante que atua sobre um corpo faz gerar aceleração.
Sem precisar usar fórmula alguma e tornando essa ciência exata e abstrata em algo compreensível vou tentar analisar o que acontece ao nosso redor.

Nessa última semana tivemos a impressão de que o VO da vacinação havia sido vencido. A campanha foi iniciada com pompa e circunstância, emoção e comoção, lágrimas e sorrisos. Chegamos a acreditar que na próxima semana já estaríamos voltando às aulas presenciais, a jantar em nossos restaurantes preferidos, que seria possível aglomerar na base do palco de nossos ídolos da música e a encontrar os amigos queridos com o abraço demorado de 11 meses atrás. 

Fui até ver no calendário qual seria o meu momento, já que não pertenço a grupo de risco e também sou moralmente formada para não querer roubar a vez de ninguém na fila.

Quando o bonde da vacinação parecia entrar em movimento retilíneo uniforme, ou seja, ganhando aceleração à medida que a consciência sobre a vacinação crescia, descobrimos que há outras forças de trabalhos não realizados que levam toda aquela pantomima a ludibriar os incautos. Mesmo com o empenho de algumas forças políticas favoráveis e a derrota dos terraplanistas inveterados.

Sobra esperança, mas falta ação mínima para que os insumos vindos dos países destratados pela atual gestão das relações internacionais brasileiras cheguem para cumprir sua finalidade. Enquanto isso o tempo passa e o estrago do passado recente faz a sua função.

Enquanto isso sobram rumores a respeito dos Jogos Olímpios de Tóquio. Por mais que se proclame autônomo das questões políticas maiores o esporte olímpico mostra uma insuportável dependência das questões sociais globais. Atletas, que são cidadãos e vivem a especificidade dos países em que habitam, não podem ser considerados prioridade para ganhar o imunizante que os protegerá de contágio.

A preparação dos atletas denuncia a desigualdade global. O treinamento físico, técnico e tático segue para aqueles cidadãos de cujos países se respeita a produção científica e critica o negacionismo. Para aqueles que habitam lugares em que a pandemia é tomada como uma gripezinha resta o temor do risco da contaminação e da perda da vida. 

O esporte mundial busca alternativas para que o espetáculo não pare. Por mais que o encantamento gerado pelos Jogos Olímpicos sensibilize os amantes do esporte, ou dos negócios, o momento é ainda dominado por Métis, a deusa da saúde, da proteção, da astúcia e da prudência. E uma vez mais é no encontro entre as ciências que se pode explicar melhor o que se passa com a humanidade.