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A ideologia neoliberal vem, ao longo de quase cinco décadas, penetrando nas mentes, nos afetos e no comportamento das classes trabalhadoras. Durante muito tempo, o sonho de qualquer jovem era simples e concreto: ter carteira assinada, ser CLT, fazer um curso em uma Etec, uma Escola Técnica da Rede Federal ou Senai, tornar-se aprendiz e conquistar um emprego registrado. O desemprego era um terror social. Um fantasma real.

Me recordo de ver meu pai desempregado em uma das grandes crises econômicas ainda sob os escombros do regime militar, na década de 1980. O desemprego não era romantizado, tampouco interpretado como “oportunidade”. Era dor, insegurança e ruptura da dignidade. Trabalhar era sinônimo de existir socialmente.

Essa racionalidade começou a ser desmontada a partir dos anos 1990, quando o neoliberalismo entrou com força não apenas nas políticas econômicas, mas no imaginário social. A lógica do “cada um por si”, da responsabilização individual pelo sucesso ou fracasso, passou a corroer o sentido coletivo do trabalho e das conquistas históricas obtidas por meio de greves, sindicatos e pressão política. Direitos passaram a ser tratados como privilégios. Proteção social virou entrave. O Estado, um problema.

As denúncias feitas por intelectuais, sociólogos e movimentos sindicais sobre a precarização do trabalho, a informalidade estrutural e a uberização da vida parecem não surtir efeito. Não porque estejam erradas, mas porque enfrentam uma ideologia que atua no plano do desejo. O neoliberalismo não se impõe apenas pela força das reformas, mas pela sedução do discurso do empreendedorismo, da autonomia ilusória e da promessa de liberdade individual.

No Brasil, esse processo se acelera dramaticamente a partir de 2016, com o golpe parlamentar que inaugura uma sequência de reformas regressivas. Entre elas, a reforma do ensino médio ocupa um lugar estratégico. Ao esvaziar a formação geral, fragmentar o currículo e subordinar a escola às “demandas do mercado”, a reforma não prepara a juventude para o trabalho digno, mas para a adaptação precária. Não forma trabalhadores conscientes; forma sujeitos flexíveis, descartáveis e culpabilizados por seu próprio fracasso.

Não é coincidência que, nesse mesmo período, haja uma queda no interesse pelo Enem e pela universidade pública. Não se trata de desinteresse pelo estudo em si, mas de uma percepção difusa e politicamente produzida, de que estudar não garante futuro algum. Ao mesmo tempo, vende-se a ideia de que “empreender” é mais rápido, mais livre e mais lucrativo. O trabalho formal passa a ser visto como prisão; a CLT, como atraso; o sindicato, como coisa do passado.

O resultado é perverso: uma juventude que não odeia o trabalho, mas foi ensinada a odiar o trabalho protegido, coletivo e regulamentado. Demoniza-se o trabalho enquanto direito, enquanto relação social mediada por garantias. O que se exalta é o bico, o corre, o algoritmo, a falsa autonomia que esconde jornadas exaustivas, ausência de direitos e insegurança permanente.

A reforma do ensino médio, portanto, não é apenas pedagógica. Ela é ideológica. Atua na formação subjetiva de uma geração que aprende, desde cedo, que não deve esperar nada do Estado, que deve “se virar” sozinha e que o fracasso é sempre individual. Ao desmontar o sentido do trabalho como direito e da educação como projeto coletivo, o neoliberalismo não apenas precariza a vida e ele redefine o horizonte do possível.

Talvez o maior desafio do nosso tempo seja recolocar o trabalho no lugar que ele sempre ocupou nas lutas populares: não como castigo, mas como direito; não como mercadoria, mas como fundamento da dignidade humana.

Professor Alexandre Machado Rosa