Resumo

Essa tese tem por objetivo analisar a construção do corpo de crianças fisicamente vigorosas a partir dos discursos médicos-pedagógicos voltados para as escolas da Paraíba entre 1913, ano da implantação das matérias de Higiene e Educação Física no Programa de Ensino de duas escolas privada – Colégio Nossa Senhora das Neves e o Colégio Diocesano Pio X -, e uma escola pública militar – Escola de Aprendizes Marinheiro -; e 1942, ano da última publicação da Revista do Ensino, dispositivo pedagógico que fez circular os saberes médicos voltados para a formação dos professores. Ao longo da pesquisa me deparei com um vasto acervo documental, que, após um processo de seleção e análise, viabilizou a escrita de uma história recheada de normas e códigos de civilizar, corpos que se higienizavam e se exercitavam, que se aspirava forte e sadio. Para problematizar esses corpos, foi necessário visitar jornais, revistas, regulamentos, leis, decretos, cartas, almanaques, livros didáticos, livros de memória, fotografias, cartões de vacinação, anotações médicas, manuscritos, dentre outros. Nessa trajetória, traçamos o seguinte argumento de tese: a confecção de projetos médico-pedagógicos visou intervir na escola, moldá-la, formá-la higienicamente. Para isso, estabeleceu um discurso sobre os mais diversos campos que formam a escola: o prédio, os professores, os alunos, as normas. Na tentativa de incutir os preceitos de higiene em voga, os médicos adentraram nas escolas, repousaram sobre elas discursos e ações capazes de atender a seus interesses. Assim, passaram a realizar diversas formações de professores e criadas diversas formas de fazer circular o saber médico aos docentes. Um projeto que envolvia quatro segmentos: os médicos, criadores da norma, os professores que recebiam as normas e tratavam de divulga-las, os alunos que recebiam tais preceitos e que por sua vez deveriam colocar em prática em suas famílias. Não é possível afirmar que projeto que visou disciplinar corpos e mentes das crianças nas escolas da Paraíba foi vitorioso, mas analisa-lo foi possível a partir das contribuições de Michel Foucault acerca da disciplina. As normas eram criadas, a maioria delas pelo Estado, e imposta a professores e alunos, a maioria delas na base da imposição, do cumpra-se. Na Paraíba, o projeto teve a liderança do médico sanitarista Flávio Maroja, que reuniu esforços para empreender um projeto coletivo, nacional, em consonância com aqueles desenvolvidos na Capital Federal e em outros estados do país. Recebia constantemente os novos preceitos que deveriam ser defendidos: as normas de higiene escolar, os cuidados com a arquitetura dos prédios, a limpeza do corpo, a ginástica sueca, as diversas formas de exercitar o corpo, dentre elas o escoteirismo e o foot-ball, e os manuais didáticos que serviam como condutores de uma consciência higiênica. São elementos de um projeto que galgava a construção de um corpo ordeiro, obediente, forte, belo e sadio.

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