Integra

Não vou discorrer sobre o sentido ecuménico e universalista do desporto, herdado dos Jogos de Olímpia. O assunto não carece de elucidação. Venho apenas erguer a voz contra o conformismo ao facto das organizações internacionais (Comité Olímpico e Federações das modalidades), devido a pressões políticas e mediáticas, decidirem excluir ou impor restrições à participação de alguns países, enquanto outros são poupados, não obstante serem autores de culpas semelhantes ou ainda piores. O sancionamento faz eco de uma campanha que quer tornar crime pronunciar o nome dos povos visados e até de vultos da sua cultura. Trata-se de uma trágica reminiscência de tempos medievais, em que era proibido nomear o diabo, não fosse ele escutar e, portanto, vir a terreiro. 
Ora isto acontece no Ocidente que canta loas ao progresso e à liberdade; e afinal está refém de visões irracionais e obscurantistas. São numerosos os que julgam e apregoam que somente aqui somos livres, e não se dão ao labor de esclarecer a noção de liberdade. Somos livres do quê, como e para quê, quando a liberdade parece resumir-se à escolha entre repetir a lengalenga dos media ou ser anatematizado e ostracizado?!
É deveras lamentável meter o desporto num curral onde os ideais, os  princípios e valores do olimpismo, humanistas e iluministas, são tomados de assalto por saqueadores sem um mínimo de inquietude ética. Pouco a pouco, perante a indiferença geral, o cultivo da amizade, da convivialidade e do fair-play recebe o cartão de expulsão e entra em cena o tropel da inimizade, da hostilidade e do ódio. 
Vem isto a propósito da persistência em proibir o nome e os símbolos de identificação da Rússia no recente Campeonato Europeu de Ginástica Artística, que ela ganhou com notório destaque. Afirmaria o mesmo se a punição atingisse qualquer país (por exemplo, os EUA e Israel) nas várias competições olímpicas, mundiais e continentais. O desporto foi criado para convocar, congregar e unir, e não para afastar, deslaçar e dividir; não deve, pois, servir fins espúrios e faltar ao cumprimento da sua missão.

Jorge Bento 
29.08.2026