Produção acadêmica no campo da educação física: metodologias de pesquisas com crianças e sobre crianças
Por Flavia Martinelli Ferreira (Autor), Débora Jaqueline Farias Fabiani (Autor), Luiz Gustavo Bonatto Rufino (Autor).
Em XX Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa
Resumo
Nas últimas décadas, observa-se um aumento substancial na literatura que discute as questões metodológicas e éticas em pesquisas com crianças. Nesse sentido, há uma revisão contínua dos métodos e técnicas utilizadas para realizar essas investigações. Dessa forma, o presente estudo teve como objetivo mapear dissertações e teses produzidas nos programas de pós-graduação em educação física (mestrado e doutorado) do Brasil para compreender como as pesquisas sobre crianças e com as crianças têm sido desenvolvidas. A pesquisa foi conduzida na Plataforma Sucupira, base de dados mantida pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) no Brasil. A plataforma reúne informações sobre programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em diversas áreas do conhecimento. Na Plataforma Sucupira, foram selecionados cursos de mestrado e doutorado acadêmicos avaliados e reconhecidos pela CAPES. A pesquisa foi restringida à área de conhecimento Educação Física (subárea 21), o que resultou em uma lista final de 22 programas específicos. Com o início da leitura dos 190 trabalhos selecionados, identificamos e categorizamos os estudos em duas categorias principais: aqueles que pesquisam diretamente com crianças (envolvendo-as ativamente na coleta de dados e nas metodologias), e aqueles que são baseados em investigações sobre crianças, focadas em teorias ou análises sobre a infância, sem necessariamente envolver as crianças como participantes ativas. Na categoria pesquisas sobre crianças, foram incluídos os trabalhos que estudam as crianças de maneira indireta, quer seja, temáticas que não envolvem as crianças como participantes ativas da pesquisa. Esses estudos focam em teorias e análises sobre crianças, seu desenvolvimento motor, comportamentos, e totalizam a maior parte dos materiais selecionados. Os trabalhos foram produzidos nas universidades UFMG, USP, UNESP RC, UFPR, UFSC, UDESC, UFRGS, UCB, UEL/UEM, UFPEL, UFRN, UFMT, UERJ, UNIFESP, UPE, UFV e UNIMEP. Na categoria pesquisas com crianças, foram agrupados os trabalhos que envolviam as crianças de maneira ativa no processo de pesquisa, ou seja, elas eram participantes diretas. Esses estudos adotam metodologias que consideram as crianças como agentes sociais capazes de contribuir com suas próprias perspectivas e experiências. Em geral, tais estudos desenvolveram metodologias participativas, como entrevistas abertas, grupos focais, registros visuais (fotografias, desenhos) ou outros métodos que permitissem a participação ativa das crianças na coleta de dados. Pode-se afirmar que os trabalhos buscaram compreender o ponto de vista das crianças sobre temas como educação, brincadeiras, relações sociais e outros aspectos de suas vidas cotidianas. Estas pesquisas foram localizadas nas universidades Unicamp, UnB e UFES, USJT. A pesquisa participativa com crianças as tem reconhecido como agentes ativos, com capacidade de contribuir para o processo de investigação. Ao invés de serem meros objetos de estudo, as crianças são convidadas a participar do desenvolvimento e a co-construir as atividades de pesquisa. A adoção de metodologias participativas é uma forma de mitigar as relações de poder entre pesquisador e participante de pesquisa. Conclui-se, nesse sentido, que a utilização de metodologias participativas como a etnografia e outros constructos metodológicos, não apenas melhora a qualidade dos dados produzidos, mas também colabora com a coparticipação no processo de pesquisa.