Rebolado como ciência do sensível diálogos afrocentrados
Resumo
O artigo propõe um diálogo multidimensional entre as danças de quadril de matriz africana e o treinamento da fáscia, compreendendo o rebolado como uma tecnologia de saúde integral e agência afrocêntrica. Fundamentado na afrocentricidade, o estudo articula saberes ancestrais, corpo-oralidades e evidências científicas contemporâneas, e traça paralelos entre o corpo negro-africano e o tecido fascial como sistemas integradores e relacionais, argumentando que o rebolado constitui uma tecnologia de saúde integral ao mobilizar ambos, articulando dimensões físicas, emocionais, sociais e simbólicas. Evidencia-se, assim, que práticas de rebolado afrocentradas operam como pedagogias somáticas complexas, capazes de promover elasticidade, equilíbrio e percepção corporal pela perspectiva do treinamento fascial, ao mesmo tempo que integram memória, identidade e cuidado integral pela perspectiva do sistema cultural de matriz africana, tensionando paradigmas biomédicos e eurocêntricos.
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