Resumo

A campanha presidencial de Bolsonaro, em 2018, com o slogan: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, revela que o Deus de Bolsonaro é cristão e cada vez mais evangélico. Sua eleição indica, ainda, a ascensão dos evangélicos na esfera e no poder público. Os efeitos dessa ascensão podem ser vistos nas escolas brasileiras, cujos estudantes e professores evangélicos são cada vez mais incisivos e impositivos em relação às suas crenças e moralidades. Alguns grupos evangélicos vêm tentando pautar as discussões e decisões escolares em seus códigos religiosos (conservadores), aumentando os conflitos sociais que envolvem as questões de gênero, racismo e intolerância religiosa. Para além dessas questões, a influência da religião na escola pública afeta a tomada de decisão de professores evangélicos sobre os conteúdos e formas de abordá-los, como é o caso da dança, capoeira e outras manifestações corporais que compõem a Educação Física escolar. Em uma escola pública e, portanto, laica, tratá-los, de forma pedagógica, a partir de seu viés histórico-cultural, deveria ser uma função de todos os professores e não uma questão de escolha, afinidade ou pertença religiosa. Por isso nos questionamos se o trato pedagógico de algumas práticas corporais estaria condicionado às identidades religiosas dos professores de EF das escolas. A defesa irrestrita da “liberdade de cátedra” colabora com a garantia constitucional de Estado laico ou a nega? Quais são os impactos do discurso religioso nos conteúdos da EF escolar? A partir dessas questões, o objetivo desta pesquisa de doutorado foi analisar se e como as crenças religiosas dos professores de EF influenciam suas escolhas pedagógicas. Metodologicamente, a pesquisa foi realizada através das narrativas docentes, tendo como interlocutores professores de EF do Ensino Fundamental (I e II) do município de Vitória/ES. Os resultados revelam que os pactos estabelecidos entre professores, diretores e comunidades, ora explícitos, ora silenciosos, produzem impactos profundos que condicionam objetos de conhecimento da EF, regulam corpos e transformam o componente curricular em território de exclusão.

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