Integra

Não há como negar: durante várias semanas pensamos e vimos o mundo através de uma bola de futebol. Não sei se demos conta de muitas coisas, porquanto vivemos numa era de apagamento dos sentidos da estranheza e escuta; assim, apesar de tantos motivos de perplexidade, talvez não tenhamos ouvido e visto o bastante para renovar o caminho.
O que os media revelaram não foi o ideário axiológico e civilizacional do desporto. Porém tornaram claro que os senhores do mundo veem os povos como cardumes sujeitos à sua voracidade. Deste jeito contribuíram para aguçar a nossa consciência acerca do quanto a estupidez e a ignorância estão entranhadas no corpo e na alma social. O pensamento único, grávido de imoralidade económica, ideológica e ‘cultural’, alimenta o ecossistema de dominação dos cidadãos; mesmo os frágeis e pobres traem a condição, renunciam à identidade e aceitam a servidão voluntária. Conforme a precisa visão de Gustave Le Bon, “dominam-se mais facilmente os povos excitando as suas paixões do que cuidando dos seus interesses.”
Tudo isto ficou a descoberto, o que é positivo. A ganância hegemónica mostrou-se sem rebuço; com isso abriu portas por onde entra o vírus que desafia a fragilidade. No palco, montado apenas para o circo e o pão que as massas devem consumir e comer, surgiram denúncias do que é curial deixar para trás e prenúncios da nova história que é imperativo escrever. Ao lado das sujeiras, houve beleza e transcendência à vista de toda a gente; e não foi pouca a que detestou as primeiras e celebrou as segundas. Sim, milhões de pessoas pelo mundo afora aperceberam-se da existência de uma desprezível maquinaria de manipulação que pode ser enfrentada pela simplicidade e coragem da verdade. Neste capítulo emergiu a atuação da seleção de Cabo Verde; e foi indecente o trato infligido às seleções do Egito e do Irão. Obviamente, o circo vai continuar; resta a esperança de que diminua a gente cega às artimanhas dos imperadores e servil dos padrinhos.
Enfim, creio que este Mundial nos ajudou a erguer o olhar para o belo e a recusar o feio. Como diz o pintor Mário Vitória, “enquanto existirem fontes no alto da serra todo o caminhante terá alívio na sua sede.” Para lá chegar, é curial atender o aviso de Fernando Pessoa: “Somos todos anjos de uma só asa, e só podemos voar quando nos abraçamos uns aos outros.” Eis nisto plasmados o ideal e o fim do desporto!

Jorge Bento 
20.07.2026

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