Integra

Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente”.

“Eu, etiqueta”

Carlos Drummond de Andrade.

Estamos vivendo tempos tediosos em que as pessoas procuram ressignificar práticas consagradas ligadas ao bem-estar, queridas pela sua herança afetiva, ou pelo conforto que podem trazer. E tomem invenções, novidades de todas as formas a serem incorporadas à vida cotidiana das pessoas e como no cotidiano tudo é sempre igual, o enfado leva a novas necessidades.

 A chamada Moda, é por si mesma mutante de acordo com os ventos que sopram; novas cores e modelos são lançados a cada estação, cumprimentos e larguras são alterados, cinturas baixas sobem, cinturas altas caem, o ajustado vira largo, e o consumo festeja.

Tudo continua igual, mas aparentemente diferente.

Pois não é que até mesmo práticas negativas, criminosas e revoltantes estão também sendo alteradas com ares de modernidade.  Os golpes que procuram levar vantagens financeiras estão cada vez mais modernos e usam até as novas tecnologias. Mas tudo permanece igual: um leva vantagem e outro perde. Quando eles ocorrem com as falcatruas de políticos ou empresários inescrupulosos, poucos ganham e muitos perdem.

Até a escravidão, mais precisamente o trabalho escravo, entra na onda da modernização. As senzalas continuam, a exploração esgotante, o terror e o horror também, mas a marcação dos escravizados tem evoluído de ferro quente, à tatuagem, com as iniciais do dono.

Voltando ao Brasil colonial, vemos que ao chegar ao porto de onde sairia o navio negreiro, ainda na África, os escravos eram marcados a ferro quente, com as iniciais do traficante responsável por eles, e ao chegar ao Brasil, recebiam novas marcas, desta vez com as iniciais de seus proprietários. A prática se repetia a cada venda. As marcas se tornavam cicatrizes inalteráveis que procuravam minimizar os riscos de fuga. Uma cruz também era inserida com brasa no peito dos batizados. Os corpos eram marcados em lugar de fácil visualização, buscando identificação instantânea.

Não bastasse a escravidão, ou o trabalho escravo, ainda perdurar em regiões brasileiras, as práticas que a envolvem também foram adaptadas à moda atual.

Pessoas foram resgatadas, recentemente, em situação análoga à escravidão, mas não transportadas em navios negreiros, mas aliciadas através de redes sociais, e foram obrigadas a tatuar as iniciais dos “donos”, em seus braços. O ferrete foi substituído pela agulha, e a cicatriz pela tatuagem.

A tatuagem das gangues, dos marinheiros, da máfia, das prostitutas, de outras eras, passou a ser manifestação artística e adorno, e já há algum tempo prolifera nos centros urbanos. Ganhou exposições em museus, músicas de autores consagrados da MPB etc.

Mas esse novo significado de posse escrava é abjeto e nojento. 

Os trabalhadores tatuados foram resgatados e estão sendo atendidos pelos órgãos oficiais responsáveis.

Mas outros, tatuados ou não, continuam sendo despidos de sua dignidade no trabalho e fora dele. O Código Penal, em seu artigo 149, destaca que quatro elementos podem caracterizar a escravidão contemporânea: trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes, e jornada exaustiva.  Vemos isso todos os dias no campo e na cidade. Ainda há muito a fazer, e com urgência.

Deixemos as tatuagens ornarem os corpos de quem teve liberdade de escolha, embora essa “liberdade” também seja influenciada pela Moda. Tatuagem da personificação e não da despersonalização, como dos escravos contemporâneos.

Originalmente obra de arte atemporal e viva como a vida, a Tatuagem é plena de significados todos remetendo a “Personalizar”, customizar o corpo, torná-lo pessoa, visualmente, ao invés de indivíduo, fazendo com que adquira características únicas e particulares.

No caso da nova marcação da escravidão que abordamos aqui, significa exatamente o contrário, indicando propriedade. É o Despersonalizar, fazer com que a personalidade se perca, tornando a pessoa em coisa, descaracterizando-a.

Não podemos nos esquecer de uma derivante da tatuagem que também despersonaliza multidões, quase toda a sociedade, ostentando logomarcas de grifes famosas ou não. Ou ainda de “propagandas ambulantes”, que desfilam no esporte, na música etc. Gente que consciente ou inconscientemente, remunerada ou não, abandona sua condição humana, segundo o poeta da epígrafe, tornando-se anúncio, “ora vulgar, ora bizarro”.

O que é mesmo ser “escravo” na nossa sociedade atual?