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Uma elite cheia de privilégios, bebendo champanhe enquanto caça seres humanos considerados inferiores, ou nem humanos, indefesos, numa floresta: já vi isso em filmes e séries. E lá fiquei impressionado com a crueldade e o requinte de maldade que vi.

Agora, ler as notícias sobre uma espécie de “safari humano”, caça por prazer, monstruosidade real, acontecendo em passado recente, muito recente mesmo, é nojento e nos faz duvidar da nossa espécie.  E as informações que dão conta dessa aberração, são recentes e confiáveis.  O caso aconteceu a cerca de três décadas atrás, e já havia sido denunciado antes, mas agora está sendo revelado em detalhes, quando foi desenterrado pela justiça italiana.

Ocorreram na Guerra da Bósnia três décadas atrás, na Sarajevo, que sofria o cerco do exército sérvio-bósnio. Milhares de civis foram abatidos por nada, a qualquer hora.  Mas aos finais de semana, com início às sextas feiras, era que os “safaris humanos” ocorriam. Os caçadores, na maioria italianos abastados, reuniam-se em cidades fronteiriças e partiam em grupos, em busca de cidadãos bósnios indefesos.

As investigações da justiça italiana, em andamento, dão conta que os “turistas” vinham de várias partes do mundo, além da Itália, e pagavam muito caro pela aventura e pela adrenalina.

Pagavam para matar e eram cobradas taxas adicionais, dependendo da escolha das vítimas, dos alvos. Aí o preconceito, o ódio eram precificados na violência de gênero e de idade, com taxas adicionais cobradas se as vítimas fossem crianças e homens, inexistentes para mulheres e idosos, que podiam ser abatidas sem pagamentos extras.

Os relatos das testemunhas da história são chocantes.

As investigações tentam detectar agora, os possíveis envolvidos e se houve atuação organizada de milícias que facilitavam o “turismo” propiciando acesso dos estrangeiros às zonas de tiro. Buscam entender se houve conivência das autoridades constituídas à época. É uma resposta tardia, mas necessária, ao “ápice da depravação”, como dizem alguns, de uma guerra de limpeza étnica, terror e massacres.

Ficamos horrorizados com a caçada humana real, vermelha, feita por pessoas que não se consideram comuns, mas aceitamos, ou pelo menos uma grande parte da população aceita o sangue das caçadas que ocorre nas nossas cidades, seja à luz do dia, ou nas sombras da noite, em tiroteios diversos e diversificados.  E a violência branca dos safaris humanos que vive no cotidiano, que persegue pessoas alvo de humilhações de todas as espécies, por serem pobres, negras, mulheres, de gêneros diferentes, gordas, enfim que fogem do padrão consagrado e aceito pela nossa sociedade desigual e preconceituosa? Isso já está virando comum, e não choca mais, nem é questionado.  Mas provoca mortes também impedindo sonhos, realizações, iniciativas que poderiam beneficiar a todos, ou de “simplesmente” vidas felizes, de acordo com suas condições, que não podem ser questionadas, ou de seu direito a escolha.

E o que dizer da violência da desigualdade social que se manifesta de modo intenso e duradouro? Guerra em tempos de “paz”, mas tão sangrenta quanto a declarada, por ser guerra, e com exércitos tão desiguais?

A base para tanto ódio pode estar no preconceito que “legitima”, pelos menos pelos perpetradores das ações violentas com armas, gestos ou palavras, o seu agir devastador de vidas, seus crimes que ficam impunes por falta de justiça.

E continuamos nossa jornada da vida, impotentes e até normalizando os crimes, que não são considerados mais como tal. Indiferença que alimenta nossa sobrevivência?  A que custo?  Seguimos nossas vidas “normalmente, e respeitáveis aos olhos de todos”, como uma testemunha descreveu o comportamento dos turistas assassinos voltando às suas cidades.