Integra
A pedido da equipe da Galeria do CEV, tentei controlar minhas emoções para escrever palavras simples sobre a trajetória pública de Carmen Lucia Soares, a Carminha. Para contribuir com sua memória, comecei a ler novamente seu Memorial para o concurso de Professora Titular da Unicamp. Minha inserção nesse texto dela me emociona muito, ainda mais agora. Ela escreveu que eu, “além de ser um grande interlocutor intelectual com quem partilho a aventura do conhecimento, tornei-me também um grande amigo”. Essas palavras dão a justa medida das minhas dificuldades em escrever sobre uma pessoa tão importante para minha vida, sem expor nada que fosse privado, narrando sua vida pública, deixando apenas meros esbarrões, alguns indícios do que lhe era pessoal.
O termo “aventura do conhecimento” foi a síntese do que Carminha, em décadas de dedicação ao magistério, disseminou como um espírito de disciplina nos campos da Educação e da Educação Física. A aventura era inspiradora para suas orientandas, pois ela formou uma geração inteira de pesquisadoras — principalmente mulheres —, as “meninas da Carminha”, desde Andrea Moreno até Rachel Ramos e Nara Montenegro, todas elas, hoje, incríveis professoras. Formou as destacadas professoras universitárias Evelise Quitzau, Daniele Medeiros, Maria Cristina Rosa, Carolina Jubé e Fernanda Roveri. Perdoem-me aqui os não menos brilhantes orientandos, como Vinícius Terra, André Dalben, Marcelo Moraes e Silva, Douglas Dias, Gianfranco Ruggeri, Matheus Bueno e outros.
Com muita generosidade, ela adotou colegas de trabalho da Unicamp como companheiras de vida: Helena Altmann, Eliana Ayoub, Helena da Biologia, Dulce Leocádio e Heloisa Pimenta Rocha. Quem conhecia a Carminha sabe muito bem de suas sensibilidades, conselhos e críticas honestas.
Ela realmente não era uma pessoa daquelas que não se posicionavam na política e na vida. O que dizer de suas observações a respeito dos equívocos e das conquistas, fossem profissionais ou pessoais, de seus amigos e amigas?
No âmbito público e acadêmico da Educação Física, sua contribuição foi ímpar em um campo no qual qualquer investimento teórico ainda é considerado um requinte desnecessário. Ela foi o exemplo de uma pesquisadora que estava além das margens disciplinares da área, pois foi aprender e ensinar nos diálogos com a História da Educação, na qual foi pesquisadora de destaque, nos temas da “educação do corpo” e da “educação na natureza”.
Desse modo, a Carminha foi muito mais do que uma das escritoras de “Metodologia do Ensino da Educação Física”, do Coletivo de Autores. Ela foi uma historiadora do corpo, das práticas corporais, das roupas esportivas e, sim, também da Educação Física e do Esporte. Sua contribuição acadêmica é singular em seu conjunto, que fala mais do que os escritos de “Educação Física: raízes europeias e Brasil”. Ela convidou os pesquisadores do campo a aprender com as imagens de um corpo que se modificava no tempo. Ela teve a ousadia de pensar a alegria e o prazer nas práticas corporais, quando a História da Educação queria ver somente as sombras do controle. Dialogou com historiadores e historiadoras, como Durval de Albuquerque e Denise Sant’Anna, que se tornou uma grande amiga, Janes Jorge e Margareth Rago. Aproximou os debates da Educação Física da produção acadêmica de historiadores franceses, como Alain Corbin, Georges Vigarello, Jean-Jacques Courtine e Marc Bloch.
Seu brilhantismo era expresso em suas aulas que, com o brilho de seus olhos, abriam as manhãs e noites por meio de breves exposições de uma hora, no máximo, na disciplina de História da Educação Física na Unicamp. Algumas gerações de estudantes da FEF, desde a primeira turma de 1985, tiveram o privilégio de compartilhar com ela essa aventura do conhecimento. Como posso falar da sua simpatia contagiante, repleta de sorrisos e algumas interdições? Afinal, mais recentemente, nada de celulares. Encerradas as falas, era a vez de dialogar sobre os materiais, principalmente textos e fontes. Uma vez por semestre, as turmas iam à biblioteca para sentir os cheiros e, ao mesmo tempo, tatear as revistas de Educação Física, datadas das décadas de 1930 a 1950, sob o olhar atento da sua companheira de vida no universo dos livros, a Dulce Leocádio.
Na linha "Educação e história cultural", do Programa de Pós-Graduação em Educação da Unicamp, ela tinha um papel de destaque, pois foi uma de suas idealizadoras. Ali também, ela fomentou, nessa aventura, uma geração de pesquisadores e pesquisadoras, da Heloisa Pimenta Rocha ao André Paulilo e, recentemente, a Fernanda Roveri.
Do mesmo modo, suas parcerias internacionais e nacionais foram frutíferas no delineamento de uma noção teórica, a “educação do corpo”, e também nos laços fraternos de amizade e respeito com uruguaios, argentinos e franceses. Particularmente com Ángela Aisenstein, Jacques Gleyse, Jérôme Thomas, Raumar Rodríguez e outros. A admiração mútua e as trocas afetuosas que ela tinha com importantes pesquisadores brasileiros no campo da Educação Física, como Alexandre Vaz, Ana Márcia Silva e Terezinha Petrúcia de Nóbrega, para citar apenas alguns, são também marcas de sua importância na área.
Enfim, de uma vida inspiradora podemos tirar muitas lições, entre memórias e esquecimentos, alegrias e tristezas; mas, como ela afirmou em seu memorial: “Está posto o que escolhi para lembrar, ou seja, é de minha memória que se trata quando escrevo acerca de meu próprio passado, daquilo que, entre lembrança e esquecimento, ela, a memória, privilegia”.
Carminha, um beijo grande e um “muito obrigado” que não se esvazie no tempo.
Edivaldo Góis Junior