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Você já ficou constrangido quando dá gorjeta para prestadores de serviço, nos seus passeios e viagens? Fica mais envergonhado ainda quando é cobrado por isso?  Eu fico.   E me acompanha ainda um sentimento de revolta.  Já pago caro pelos serviços que compro, e ainda há a taxa disfarçada de opcional, aumentando ainda mais a despesa.

A base da minha revolta está na percepção de que historicamente, esse expediente vem sendo usado por empregadores como uma forma de manter os salários baixos, transferindo ao cliente o ônus da complementação salarial. Fico indignado com o caráter assistencialista da gorjeta, que depende de benevolência e está impregnada de preconceitos de classe social, gênero, raça etc.

O hábito nasceu no século XVI, na Alemanha, com o chamado dinheiro para bebida, para garçons e criados, como forma de gratidão, expandiu-se para a Inglaterra, no século XVII, a fim de garantir o atendimento rápido em cafés e outros estabelecimentos comerciais, com a expressão “ to insure promptness”, ou TIP.

Em francês é chamada de “pourboire”, para beber, e gorjeta vem de “gorja” garganta, reeditando a ideia de “molhar a garganta”.

Já no século XIX, viajantes americanos importaram o costume da Europa, e a gorjeta transformou-se numa forma de ostentação, exibindo “status social”, e no Pós-guerra civil, donos de restaurantes viram isso como forma de pagar salários baixos a trabalhadores libertos da escravidão, notadamente negros.

No Brasil ela é conhecida também como “caixinha”, “cafezinho”, “gratificação”, “recompensa”, etc., e já inspirou até canções e poemas.

Os defensores da gorjeta a consideram como um fator que motiva o trabalhador a buscar a excelência no atendimento, o que aumentaria sua produtividade e eficiência. Mas será que um bom salário regular não supriria todas esses pontos positivos?

Os Estados Unidos, considerados por muitos “O país das gorjetas”, está fazendo experiencias para eliminá-las, e os trabalhadores do setor de serviços renunciam às gratificações, pela substituição por maiores salários fixos, elogiando a previsibilidade da remuneração. Os clientes comemoram e os donos de restaurantes, por exemplo, ficam animados com o crescimento do consumo. Além disso o aumento dos salários se dá para todos os funcionários, incluindo os da base, como da cozinha por exemplo, não ficando restrito aos profissionais de atendimento direto, os garçons.

Isso está ocorrendo num país em que as expressões questionadoras da gorjeta, já são frequentes, como “cansaço das gorjetas”, “arrepio das gorjetas”, “vergonha das gorjetas”, etc. etc.

Há países em que os trabalhadores recusam a gorjeta, e ela é um costume malvisto, como no leste asiático, Japão e China liderando o ranking. Em outros ela já vem embutida nos preços, para evitar constrangimentos.

E há ainda casos de donos do serviço que não repassam a gorjeta para seus empregados. Recentemente os garçons do Rio de Janeiro foram a público para denunciar o desvio de gorjeta pelos patrões. Há cerca de 17 mil processos no país, reclamando o desvio, atualmente. Os Sindicatos tentam a reconciliação entre as partes, mas ela nem sempre acontece.

E em se tratando das gorjetas, pelo menos aparentemente, essa é uma das únicas atitudes dos Sindicatos de trabalhadores, não se vendo grandes movimentos pela incorporação nos salários, medida que aumentaria o poder de compra e os benefícios previdenciários, incluindo salários mais reais quando da aposentadoria.

O debate sobre o assunto é complexo e divide opiniões.

Entre os que argumentam que a gorjeta prejudica a luta dos trabalhadores por salários justos, destacam-se: a instabilidade financeira, uma vez que é uma renda com a qual não se pode contar seguramente; o mascaramento da precarização do setor de serviços, com a resignação a salários baixos; falta de garantias previdenciárias; e a isenção de responsabilidade patronal, transferindo para o consumidor a compensação pelos baixos salários.

Para quem defende o modelo atual os pontos positivos destacados são: complemento imediato da renda; recompensa no aqui e agora pelo esforço e dedicação ao prestar um bom serviço; e a flexibilidade do setor, pois a erradicação das gorjetas, implicaria em preços mais altos, impactando o consumo e aumentando o risco de demissões.

Seja como for eu continuo constrangido e revoltado quando sou submetido a essa regra que é apresentada como facultativa, mas cuja recusa envolve reações negativas e olhares de desaprovação. E você fica constrangido também, ou aceita de bom grado esse costume tão arraigado, e vai me considerar um “pão-duro”, ou velho demais por usar essa expressão?