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Espaços e equipamentos de lazer como bens culturais podem ser considerados como elementos de hegemonia, na visão gramsciana, de que é possível trabalhar na criação e difusão culturais para tentar criar valores que contestem a estrutura social vigente.

Alguns são bem específicos quanto à natureza do que é apresentado e vivido. Tal é o que acontece com a música erudita ou clássica, -como nem sem polêmicas essa denominação é usada, mas todos sabemos o seu significado-. e os cuidados especialmente com a acústica e o tratamento cuidadoso com o som.

Dessa forma é motivo de comemoração quando mais deles são inaugurados nas nossas cidades aumentando a oferta

É recente a abertura de novo equipamento no Complexo Cultural Júlio Prestes, a Estação CCR das artes, uma sala para espetáculos com capacidade para 543 pessoas, que agora faz parte do conjunto que abriga também talvez o equipamento para concertos mais emblemático da cidade, a Sala São Paulo (de quase mil e quinhentos lugares).

E digo emblemático por várias razões: pela especificidade, relevância, excelência técnica (tive ocasião de visitar, há algum tempo, as salas de controle de som e iluminação e eram fantásticas), e pela com conservação e revitalização de um patrimônio ambiental urbano, a estação ferroviária Júlio Prestes, que hoje faz parte de uma área degradada do centro. Mas é de fácil acesso, e os ingressos esgotam com facilidade quase instantânea, pelo menos para os espetáculos que procuro assistir.

Mas, agora devemos saudar um novo espaço que tem tudo para figurar entre os emblemáticos também, sobretudo como exemplo que acolhe a diversidade de público, abraçando linguagens musicais diferentes: O Teatro Baccarelli, localizado em Heliópolis, a primeira sala de concerto dentro em uma favela, e que vai procurar unir erudito e popular.  Sua abertura se deu com a apresentação da Orquesta Sinfônica Heliópolis, já premiada internacionalmente.

O projeto social musical já existe na favela há três décadas fundado pelo Maestro Silvio Baccarelli, e inclui também dança, atendendo cerca de 1600 jovens de Heliópolis.

O novo espaço com arquitetura que valoriza a importância da reprodução sonora no seu interior, no exterior procura não se destacar do ambiente, como forma de não representar a sacralização da arte, mas sim sua democratização. Procura também contribuir para mitigar a centralização dos espaços culturais, no centro e áreas consideradas mais “nobres”.

Todas as três iniciativas são frutos da conjunção de esforços do Estado, do Terceiro Setor e da Iniciativa privada, demonstrando a eficácia de ações nesse sentido.  Que elas proliferem em mais espaços e equipamentos de lazer e em mais cidades brasileiras, independente de seus tamanhos,

Com a inauguração da primeira sala em uma favela do país, os músicos da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, que já se apresentaram em várias locais de diferentes cidades, agora poderão mostrar sua música no local de onde saíram e para as pessoas com as quais convivem, no cotidiano.

O espaço constitui um desafio para as teorias que opõem centro e periferia preconceituosamente carregadas de juízos de valor, polarizadores de progresso/avanço e estagnação/atraso. Opõe, assim, os símbolos da feia desigualdade brasileira, contestados a partir da beleza da música.