Técnica e Estética na Ginástica: pela legitimidade da pessoa com deficiência
Por Enoly Cristine Frazão da Silva (Autor), Kaio César Celli Mota (Autor), Michele Viviene Carbinatto (Autor).
Em XXI Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa
Resumo
A ginástica rítmica (GR) é uma modalidade técnico-combinatória que exige harmonia entre elementos corporais e manejo de aparelhos, executados em consonância com o ritmo musical. Na ginástica rítmica adaptada (GRa), presente nas Olimpíadas Especiais, mantêm-se tais exigências, organizadas em quatro níveis que possibilitam a participação de atletas com Síndrome de Down (SD), todos regidos por código de pontuação. Comumente, trata-se de modalidade com baixa visibilidade, frequentemente atravessada por concepções capacitistas que reduzem a prática aos modelos recreativos ou terapêuticos, deslocando o foco da competência esportiva para a condição biológicas. Sob a perspectiva fenomenológica, que compreende o corpo como corpo-próprio -lugar de experiência e produção de sentidos -este estudo teve como objetivo refletir sobre como a percepção da técnica e da estética influenciaram a identidade esportiva de uma atleta de alto rendimento com SD na GRa. A protagonista foi Érika Coimbra, atleta brasileira e campeã internacional. A construção dos dados ocorreu por triangulação metodológica de duas entrevistas fenomenológicas, sendo uma com metodologia visual (artefatos pessoais e imagens evocativas) e observação não participante em contexto competitivo. A análise seguiu os pressupostos da fenomenologia descritiva. Organizamos os dados em duas unidades de significado: (1) técnica como desvelamento do corpo-atleta e (2) estética como visibilidade do corpo-atleta. Os resultados indicam que a atleta reconhece suas características biológicas sem percebê-las como impeditivas. A técnica estrutura sua identidade esportiva, mediando limites, dor e aperfeiçoamento motor. A estética configura-se como espaço de expressão e reconhecimento, no qual o corpo é legitimado pela performance, elegância e competência esportiva, produzindo empoderamento e reconhecimento social. Nesse movimento, o corpo deixa de ser reduzido à deficiência e passa a afirmar-se como corpo-atleta, validado pela excelência de sua presença performativa.