Tecnologias de governo dos corpos dos atletas olímpicos
Por Carlos José Martins (Autor).
Em XX Congresso de Ciências do Desporto e de Educação Física dos Países de Língua Portuguesa
Resumo
Esta pesquisa tem por objetivo mapear as principais tecnologias de governo dos corpos dos atletas olímpicos. Considera que no âmbito do mundo moderno e contemporâneo os corpos dos atletas olímpicos tornaram-se um dos principais focos de investimento de tecnologias de controle e governamento. Não obstante a especificidade do campo, concebe-se a sua propagação em outros domínios. Esta pesquisa se vale da abordagem genealógica de inspiração foucaultiana, que busca descrever quais são as configurações dos corpos num dado contexto, a partir das relações de força que os investem e das estratégias que os modelam. Não se trata de tomar o corpo como um objeto invariável no tempo e no espaço. Antes pelo contrário, seu objetivo é oferecer diferentes elementos para a análise do corpo enquanto objeto heterogêneo e plural, sujeito a modulações por diferentes técnicas de controle e governo. O estudo do corpo aqui significa trabalhar em uma perspectiva que implica a apreensão das condições de possibilidade que fazem emergir, em uma dada época e contexto, as configurações corporais correspondentes às relações de força presentes em um dado campo de aplicação social. O procedimento metodológico adotado será: dadas as forças do corpo, com que outras forças e tecnologias estas entram em relação? Sejam as forças mecânicas, motoras, bioquímicas, cognitivas, reprodutivas, genéticas, entre outras, encontradas nos corpos, a humanidade nunca cessou de produzir formas de interagir com estas imprimindo-lhes os fins que mais conviessem aos seus interesses em um determinado domínio de aplicação social. Neste sentido, esta pesquisa irá investigar de que modo o corpo do atleta olímpico vem sendo investido, modificado, marcado, aperfeiçoado em nossas sociedades modernas através de práticas e técnicas que lhe são contemporâneas. O corpo, nesta abordagem, não tem estruturas e necessidades fixas, como pensa a perspectiva naturalista, mas pode ser modificado, aperfeiçoado, e suas necessidades, produzidas e organizadas de diferentes maneiras. Ele é maleável, flexível, formado por diversos hábitos, valores e práticas, estando, portanto, sujeito a reconfigurações históricas. É por não ser um mero dado natural, que as técnologias investem sobre sua materialidade e forças. O esportista de alto rendimento encarna como poucos os ideais da sociedade moderna industrial e tecnocientífica. O aperfeiçoamento contínuo, o desempenho mensurável, a autossuperação. Sua genealogia, como pretendemos demonstrar, tende estruturalmente para uma ilimitada ultrapassagem de limites. Daí a necessidade intrínseca de competições e superação de recordes contínuos. Na contemporaneidade o corpo do atleta olímpico muitas vezes se confunde com os extremos do próprio mundo que o engendrou. É ele mesmo a trama aguda e concentrada dos traços emblemáticos deste mundo. Uma espécie de complexa “couraça muscular orgânica” produzida por toda uma engenharia politécnica do treinamento esportivo. Uma mistura de protótipo da racionalidade científica, “cobaia tecnocientífica” altamente especializada e arquétipo instrumental do homem pós-orgânico contemporâneo. Por conseguinte, os corpos dos atletas olimpicos vem se tornando progressivamente foco de um intenso investimento tecnocientífico de controle e governamento. Neste sentido, procuraremos circunscrever nesta pesquisa os principais traços do diagnóstico deste processo.