Resumo

O objetivo desse estudo foi relatar uma experiência político-pedagógica com a tematização dos esportes nas aulas de Educação Física Escolar no Ensino Médio integrado à luz do currículo-crítico-libertador. O projeto educativo foi sistematizado com os(as) estudantes do primeiro ano dos cursos de Administração e Informática do Instituto Federal de São Paulo – campus Jacareí durante um semestre letivo do ano de 2024. Cada turma possui aproximadamente 40 jovens com diferentes características. Na Educação Física crítico-libertadora, a função social do componente curricular está relacionada com a leitura de mundo crítica sobre os temas que envolvem as manifestações da cultura corporal, na perspectiva de construir um corpo consciente. Nesse cenário, surge o conceito de práticas corporais-mundo, já que todos os momentos das aulas são potencializados para que exista um processo de conscientização sobre a realidade material opressora produzida na sociedade capitalista, evidenciando também os processos de resistências e transgressões das pessoas que buscam uma estrutura societária mais justa, diversa e equitativa. Dessa forma, na perspectiva de ampliar a leitura de mundo dos(as) educandos(as), buscando a conscientização e o pensamento crítico sobre os saberes historicamente produzidos pela humanidade relacionados com os esportes, construímos coletivamente diferentes atividades de ensino a partir do planejamento participativo. Foram realizadas leituras de reportagens jornalísticas, apreciação de documentários e análise de crônicas que problematizavam questões de gênero, raça e desigualdades socioeconômicas que atravessam as práticas esportivas. Também organizamos vivências de esportes alternativos (tchoukball, kin-ball e frisbee), com raquetes (badminton e frescobol), de aventura (slackline), para pessoas com deficiência (goalball, futebol de 5, vôlei sentado e basquete em cadeira de rodas), coletivos (handebol e futebol) e dos povos originários (Ronkrã). Com a intencionalidade de aprofundar os debates, dialogamos com uma jogadora amadora de handebol que relatou as experiências de assédio e opressão que vivenciou ao longo do tempo por conta do preconceito sofrido pelas mulheres que praticam esportes. Por fim, visitamos o museu do futebol na cidade de São Paulo com a intencionalidade de ampliar os saberes dos(as) educandos(as) sobre a resistência das atletas para vivenciarem competições oficiais dessa modalidade esportiva e analisar a história das copas do mundo femininas de futebol. Os instrumentos de avaliação evidenciaram uma leitura de mundo densa da realidade com a produção de fotos relacionadas com as opressões no mundo esportivo, relatórios sobre a história de resistência do movimento negro, das mulheres e da população LGBTQIAPN+ para participar dos Jogos Olímpicos, exposição de atletas com deficiência brasileiros(as) que experienciaram as Paralímpiadas de Paris, relatório da participação feminina nas copas do mundo de futebol ao longo de todas as edições que já foram realizadas e uma prova com questões do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que problematizavam temas com enfoque nas práticas esportivas. Apesar de todas as dificuldades existentes no cotidiano escolar, o currículo crítico-libertador da Educação Física tem inspirado potentes experiências educativas, legitimando o componente curricular como um espaço relevante para a construção cidadã das novas gerações.

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