Integra
A crise da teoria é evidente. Byung-Chul Han (‘A Agonia do Eros’) assinala que ela está a chegar ao fim na nossa era. Os factos não desmentem a avaliação do filósofo.
Ao contrário da propaganda, esta não é uma ‘sociedade do conhecimento’, mas apenas de informações e vivências voláteis; para se tornar conhecimento carecem de maturação e sedimentação. Este requisito não é consentido pela voracidade consumista que não se compraz com a durabilidade e, antes, precisa da efemeridade e constante substituição dos produtos.
Isso é particularmente manifesto, doloroso e nocivo nas instituições académicas, onde a competitividade, imposta pelo sistema dos rankings e das métricas e pela progressão na carreira, transformam os pesquisadores em caçadores de dados e em ‘infomaníacos’, compelidos a incessante labor repetitivo e aditivo no campo da mesmidade das linhas de investigação, a não gastar o tempo com atopias e distopias, a renunciar à busca de causalidades e a contentar-se com correlações. Neste ambiente não subsiste o acicate da estranheza: nada se estranha, a conformidade entranha-se e o relativismo medra. A autossatisfação, a contabilização e exibição dos trabalhos publicados marcam a ‘cultura’ reinante, Assim se enfraquece, atrofia e expulsa o pensar e o idealizar, para dar lugar ao calcular; e é também destarte que se estabelece uma ciência sem teoria, exercida por peritos que, em não poucos casos, se assemelham a ‘coachs’. As exceções, embora sejam brilhantes, não bastam para negar a tendência maioritária.
Paradoxalmente, perante tamanha acumulação de registos e informações, a teoria, ou seja, a visão e proposição de coisas superiores para ordenar o pensamento, orientar e supervisionar a ação, é mais requerida do que nunca; mas foi posta de lado, para afastar a incomodidade do incalculável, e para que os dados não sofram questionamento. Eles e os números são suficientes e falam por si mesmos; não precisam de qualquer fonte de interpretação, justificação e referenciação hermenêuticas e epistemológicas.
O alerta de Platão mantém plena atualidade: “O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê.” O vento da ciência e formação é o da teoria; sem esta não se aponta o rumo salvador daquelas. Mas… que ventos sopram hoje na casa da formação e investigação? São os que se evadiram da Caixa de Pandora ou os que movem as asas do anjo da esperança na tentativa de os apanhar e domar? Há alguma inquietude em relação à possibilidade de inter-relação? Poderá a mestria técnica e instrumental, por si só, conferir a alguém o estatuto da ‘excelência’?
A teoria é o vento invisível que enfuna as velas da curiosidade, da imaginação e da razão, e favorece a procura de porto seguro. A falta dela acarreta défice do espírito, do intelecto e da idealização. As consequências estão à vista: as crises económica, ética, cultural e civilizacional, notórias no nosso contexto geopolítico, derivam do apagamento da teoria. Esta clareia o pensamento, dá forma e atribui sentido aos factos; e impede a mistura e proliferação de coisas sem nexo. Ao invés, a banalidade, o puerilismo e a superficialidade instalam-se e depreciam a profundidade das abordagens. A profusão de informações e dados chega para que nos ‘inteiremos’ dos relatos oferecidos em proveito de quem os elabora; porém não ocasiona o choque da negatividade e da indagação, não produz conhecimento e abertura para a verdade, não muda nem anuncia as ruturas do vigente, não pergunta pelas causas nem se incomoda com as implicações e os efeitos.
Afinal, a sociedade da informação constitui tão-somente uma colcha tecida de vivências esporádicas, fugazes e passageiras. Ficaram para trás os discursos de sabedoria, feitos de longa experiência e ponderação, temperados com o sal da dúvida e reflexão, grávidos de inquietude e transportadores para fora de si, em que o Logos namorava o Eros; foram substituídos pelos da conveniência e confirmação do lugar existente, da posição prevista, estabelecida, aceite e premiada de antemão. O atópico e o não percorrido não seduzem o calculismo. Este não é dotado de transcendência, não faz amorosamente o caminho por andar, não inclui o pensamento. Os filósofos e os pensadores, por definição amigos e amantes da sabedoria, sofrem ostracização ou exílio; o vazio deixado está ocupado por acionistas de informações, incapazes de relacionamento e casamento com o Outro, de gerar o novo e, assim, de converter o calcular em pensar. Em suma, por detrás da difusão de dados e números eivados de pressa e ligeireza, que envernizam a pele enrugada da aparência e camuflam a repetição do idêntico, não se percebe a essência de uma ideia consistente, proveniente da teoria ou convergente para ela. Eis o retrato duro, porém não falsificador do panorama atual que se fecha no seu esgotamento e recusa examinar o estado de saúde da epistemologia.
Jorge Bento