Integra

O sol estava se pondo quando a idosa de 80 anos parou para descansar e se afastou do seu grupo de companheiros de viagem. Tinha saído de um navio para caminhar na Ilha Lizard, na Austrália.  A intenção do grupo era atingir o pico mais alto da ilha, mas cansada, a idosa parou para tomar fôlego, demorou, e não retornou com o grupo. Ninguém sentiu sua falta. Velhos são mesmo invisíveis.

Foi esquecida pelo navio do Cruzeiro que estava fazendo, mais um na sua lista, pois fazia costumeiramente esse tipo de viagem. Este estava apenas começando e duraria cerca de sessenta dias, ao redor da Austrália. Não se sabe o nome da passageira esquecida, pois ele não foi divulgado, mas apenas que as passagens custam dezenas de milhares de dólares.

Muitas pessoas recorrerem a cruzeiros por se sentirem sós e até para encontrar novos sentidos e novos pares, aventuras amorosas e companheiros. Isso já motivou filmes, novelas, livros, músicas etc., etc.

Talvez ela tenha partido no Cruzeiro para se esquecer da sua solidão, por estar se sentindo rejeitada por todos a quem amava, mas acabou perdida e apagada para morrer só, em meio ao sonho da viagem.

Ela estava sempre com o cabelo impecavelmente penteado, e usava maquiagem sem exageros.  Vestia roupas confortáveis, largas e coloridas.

Adorava os cruzeiros, pois se ocupava com eles e isso mitigava sua rotina diária e solitária. Levava tempo para escolher o trajeto, o navio, fazer as malas, separar as roupas adequadas para inverno ou verão, e durante o percurso alimentava suas redes sociais com posts dos momentos alegres da viagem, pessoas e lugares bonitos.  Na volta sempre tinha assunto para conversar com os poucos amigos, e no grupo de idosos que frequentava.

Devia ser rica, mas a solidão dos idosos não escolhe classe social, e muitas vezes é mais severa nas esferas sociais superiores em poder e dinheiro.

O capitão do navio informou as autoridades do desaparecimento quando notou, mais isso ocorreu somente por volta das 21 horas.

A noite helicópteros e equipes de busca foram até o local munidos de lanternas e procuraram até as três horas da manhã seguinte.

Um helicóptero voltou ao local ao amanhecer e encontrou o corpo.

E o que se seguiu foi o de costume: a família foi avisada, a empresa ofereceu apoio e lamentou o ocorrido, e foi aberta uma investigação para apurar o caso de “morte súbita e não suspeita” da mulher. Se fossem mais a fundo analisando as causas da morte certamente chegariam à conclusão que morreu de solidão, raiz de muitas mortes de velhos. As doenças são somente seus efeitos colaterais.

Não faltaram declarações sobre a tristeza por ter ocorrido “uma tragédia naquele paraíso”, a transformação de um momento feliz em tristeza, e a classificação da idosa como uma “adorável senhora”.

E a viagem continuou até o seu final. A vida continuou. Menos para ela, morta sozinha, abandonada, condição da qual procurava se livrar ao fazer mais um cruzeiro, que não sabia que seria o último, e o do esquecimento definitivo.