JC e-mail 3803, de 13 de Julho de 2009.
   
6. A cultura do acesso aberto, artigo de Rogerio Meneghini
   
É preciso haver maior controle oficial sobre a base de currículos da Plataforma Lattes? Não

Rogerio Meneghini é coordenador científico do programa SciELO de revistas científicas brasileiras, professor titular aposentado do Instituto de Química da USP e membro da Academia Brasileira de Ciências. Foi presidente da primeira Comissão de Avaliação da USP (1993-1997). Artigo publicado na “Folha de SP”:

Em 1974, durante meu pós-doutorado no departamento de biologia da Universidade Stanford, reunimo-nos Paul Ehrlich, famoso cientista e então chefe do departamento, um escrivão e a secretária para, com dois colegas americanos, assistirmos incrédulos a um cerimonial inusitado pelo qual eu paguei US$ 50 de minha bolsa de US$ 300 mensais.

O escrivão ali estava para comprovar que a assinatura de Ehrlich no documento era autêntica. Este confirmava que Francisco Lara, meu orientador de doutorado na USP e doutor por Stanford, trabalhara como auxiliar de ensino naquele departamento. Lara tinha recorrido ao consulado brasileiro para registrar contagem de tempo dessa atividade para a aposentadoria, mal sabendo que os diplomatas brasileiros também são cartoriais e fazem exigências compatíveis. O documento tinha que ter carimbo de reconhecimento oficial, mesmo o notário não sendo reconhecido no Brasil.

Cinco anos depois, veio o Ministério da Desburocratização, encabeçado por Hélio Beltrão, que, como se antevia, mal conseguiu mexer no sistema cartorial brasileiro. O setor acadêmico, como obriga sua missão, deu um passo à frente do cartorialismo nacional com o CNPq, criando em 1999 a Plataforma Lattes, na qual qualquer cidadão pode registrar, por meio de senha pessoal, um currículo que assinale suas contribuições intelectuais.

Foi um feito insólito mundialmente, permitindo que, em acesso aberto, consultem-se os indícios de competência intelectual de um cidadão. Acesso aberto é uma cultura nova, que se tornou possível devido à internet. Surgiu em 1990 com a Plataforma ArXiv de artigos científicos. Nela, Grigori Perelman, matemático russo, depositou artigo resolvendo o mais intrincado problema de matemática até então (Conjectura de Poincaré), considerado o maior feito científico de 2006 pela revista "Science".

Em 1997 ocorreu outra iniciativa insólita mundialmente: a criação da base SciELO de publicações de revistas científicas brasileiras em acesso aberto na internet, que depois se expandiu para outros 13 países, abrangendo hoje mais de 600 revistas.

A cultura do acesso aberto é fruto da dinâmica da internet. O compartilhamento exponencial de conhecimento não deixa margem a um controle oficial prévio. Os processos de retificação, ampliação e aperfeiçoamento são feitos pelos usuários, como no caso da Wikipédia. Nela, o pouco que se perde em precisão para as enciclopédias clássicas se ganha em abrangência e conteúdo.

A Plataforma Lattes tem hoje mais de 1 milhão de currículos e, diariamente, são feitas dez mil atualizações. Pode-se imaginar o que a cultura brasileira de deixar ao Estado a responsabilidade de verificar a exatidão dos dados significaria em inchamento da máquina burocrática do CNPq e a decorrente subtração de recursos para a pesquisa.

Fraudes ocorrem no mundo acadêmico. Um trabalho científico pode ter um texto contundente, preciso e relevante, mas é difícil avaliar as fraudes de dados. Se esse for o caso, é muito provável que os resultados de outros pesquisadores não reproduzam os achados e conclusões do fraudador.

No currículo Lattes, softwares podem se tornar poderosos para identificar incorreções e fraudes pelo cruzamento de dados dentro do próprio sistema e com relação a outras bases acadêmicas. O CNPq está empenhado nessa direção.

Uma outra iniciativa, mundial, é registrar identificadores de cada documento. O intuito é facilitar buscas e evitar erros nas referências aos documentos. O sistema Lattes já possui links para esses identificadores e para bases de revistas científicas. É, porém, no momento de sua consulta por outrem que percepções de erros e fraudes são mais prováveis, principalmente quando os dados vão ser utilizados para procedimentos de concursos, promoções e admissões.

Nesses casos, olhos experientes detectarão indícios que levarão a consultas de outras bases para apurar a acurácia dos dados. Um currículo forjado pode marcar indelevelmente uma carreira.
(Folha de SP, 11/7)

Comentários

Por Alexandre Moreno Castellani
em 14 de Julho de 2009 às 09:41.

A Folha não dá ponto sem nó.

"Um currículo forjado pode marcar indelevelmente uma carreira" na página tal, Dilma e seu Lattes algumas páginas depois.

Bingo.


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