A seleção masculina de voleibol não conseguiu a classificação para as Olimpíadas de Londres. Perdeu ontem (10/6) para Porto Rico por 3 x 0 e precisará aguardar mais quatro anos para tentar uma nova classificação, desta vez, para as Olimpíadas no Brasil.

O investimento no voleibol, tanto masculino como no feminino, são altos, mas os resultados a nível de seleção não aparecem. Por aqui tudo tem início nas escolas. É lá que os alunos começam a ter contato com esportes olímpicos. Isso segue até o final do colegial. Depois que o aluno escolhe o esporte que quer praticar, os treinos são praticamente diários, inclusive nos finais semana. Tem muito jogos também. Acredito que as falhas para tantos praticantes e poucos resultados no grau mais alto do esporte se deve ao pouco preparo dos professores, que não possuem formação em Educação Física. Como o sistema por aqui exige que professores de outras matérias ensinem esportes também, muitas crianças estão em mãos de pessoas não especialistas.

Será que é isso?

Comentários

Por Roberto Affonso Pimentel
em 11 de Junho de 2012 às 10:14.

Edison,

Muitas podem ser as causas e, por isto, difícil o diagnóstico. Para enveredar nesse terreno (ou qualquer outro), devemos nos valer inicialmente da história. No caso do Japão, até o início da década de 60 jogavam com 9 participantes de cada lado. Participaram no Brasil dos campeonatos mundiais em 60, tendo a equipe feminina surpreendido a todos conquistando o vice-campeonato. Quatro anos depois, em sua própria capital, foram campeãs olímpicas. A equipe masculina, embora já apresentasse bastante evolução, somente se consagraria em 1972, nos Jogos Olímpicos de Munique. E, ao que foi propalado ao mundo, pela ação de Yasutaka Matsudaira, que revolucionou os métodos de treinamento e estratégias utilizadas por suas equipes. Após um grande recesso, vi no ano passado a equipe feminina japonesa atuando no Mundial que me deixou feliz, pois considerei a melhor preparada técnica e taticamente.

Quanto ao treinamento na Formação - crianças e jovens - creio já ter falado rapidamente sobre isto, quando relatei sobre a metodologia apresentada pelo técnico Toyoda no simpósio mundial de minivoleibol em 1975, na Suécia: adaptaram treino de adultos para as crianças! Quanto mais são ministrados por quem não tem competência para tal (no Canadá, costa Leste tb é assim nas escolas), pior para todos. Para melhor conhecer e realizar a escolha pedagógica leia o meu diálogo com o Mestre João Crisóstomo em www.procrie.com.br/teoriavs.pratica/ .

É bem possível também que o biotipo prejudique e tenha que ser compensada de alguma forma a complexão atlética dos indivíduos, como foi feita durante os 8 anos de preparo engendrados por Matsudaira (tenho o filme 20 min. que produziu). Outro aspecto seria de fundo cultural, pois naquela época a mulher era bastante submissa e sujeitava-se a qualquer sacrifício para atenuar essa situação. Não sei hoje como estão.

Na Itália, no período áureo de investimentos no voleibol, não conseguiam alavancar o setor feminino, pois se concentravam em buscar somente atletas altas, perdendo o foco do que seja uma Formação inteligente. Eram imediatistas e muitas vezes orientados por técnicos estrangeiros, sendo um deles brasileiro, que pouco ou nada conhecia da cultura do país.

Gostei muito da sua colocação, pois é o foco de meu projeto entregue à CBV em fev./2012, e que estou submetendo à apreciação para que critiquem em:  http://prezi.com/9nhuhq5t7coh/procrie/

Por Edison Yamazaki
em 12 de Junho de 2012 às 03:12.

Roberto,

Todo trabalho esportivo de base no Japão é feito nas escolas. Aqui não existem clubes como no Brasil onde a garotada (aqueles que podem pagar) recebem orientações e brincam em várias modalidades. Em Sâo Paulo cheguei a assistir treinos no E.C. Pinheiros, Paulistano, Monte Líbano, Sírio, Alphaville, Indiano, Alto de Pinheiros, Paineiras do Morumbi, Banespa, C.R. Tietê, Espéria, Tênis Clube Paulista, C. A. Ipiranga, Hebraica, Clube Castelo, entre outros.

Aos professores de Educação Física japonês cabem as aulas curriculares. A escola é em período integral (mais ou menos até às 15 horas), depois veêm as aulas de esportes que o próprio aluno escolhe. Os professores que tiverem conhecimento básico de algum esporte é que será o treinador da turma, mesmo que esse conhecimento seja rudimentar e o professor seja de matemática ou história. Aí começam os treinos, que muitas vezes não possuem "nem pé, nem cabeça". No fundo é apenas uma maneira de fazer o aluno permanecer na escola aproveitando o seu tempo de maneira "útil". Logicamente que dentro de milhares de crianças, algumas se destacam e é em torno desses alunos que o esporte da escola flutua.

Acredito que a cultura tem grande influência na formação esportiva. O Japão prioriza o esforço e o coletivo. Aqui é necessário que todos corram juntos, o resultado está sempre em segundo plano. Por isso, os treinos comandados pelos leigos são intensos e pouco técnicos. Assim, um aluno de natação, por exemplo, fica nadando um tempão sem nenhuma correção "gravando" todos os movimentos errados que executa. Nesses casos também, não temos professores de Educação Física para ensiná-los. Nos outros esportes a situação é similar.

Sei um pouco da história do vôlei japonês. Assiti a alguns vídeos também. Treinos comandados a ferro e fogo com as atletas chorando, submissas à tudo. Apesar das medalhas, os japoneses de um modo geral, evitam falar sobre esse período. Hoje em dia as coisas estão melhores, mas não tão melhores assim. Ainda existem vários focos desse pensamento, onde o esforço, a dedicação, o treino duro, intenso e longo é valorizado. Todos os anos morrem crianças por causa do excesso de treinos, mas tudo é abafado pelas autoridades. Eu já presenciei uma jogadora de basquete colegial sendo castigado pelo seu treinador, e tendo que correr ao redor da quadra mancando com uma proteção no joelho. A dor parecia tanta que ela as vezes caía chorando.  O treinador se aproximava, dava alguns tapas e murros para que ela levantasse e continuasse a correr. Isso tudo na frente de toda a equipe. Isso aconteceu em 2006 na cidade de Nara, quando trabalhei na equipe profissonal de basquete feminino da poderosa Toyota Boshoku. Fiquei tão revoltado que interví no problema questionando o treinador.

Continuarei acompanhando as suas pesquisas e trabalhos no Procrie.

Um grande abraço,

 

 

 

Por Roberto Affonso Pimentel
em 12 de Junho de 2012 às 07:05.

Edison,

Grato por sua paciência em acompanhar-me. Como lhe disse, também no Canadá (costa leste) o ensino na escola é feito por professores de diversas matérias. Meu filho passou uma temporada ministrando aulas de Física próximo a Toronto e sempre nos relatou suas peripécias. Não foi tão mal porque foi escoteiro, inclusive chefe, é muito criativo e tem o pai como um bom professor (de voleibol).

Naquele mesmo período de glória do voleibol japonês feminino, suas seleções peregrinaram pelo mundo exibindo-se e encantando a todos. Todavia, seu treinador parecia que estava em casa, pois durante os treinos entre jogos não se constrangiam em esbofetear as moças mesmo na presença de outros.

Donde se conclui o que dissemos a respeito do valor da história e cultura de um povo. Além disso, parecem não ter aprendido (ou não querem) valorizar o que a Psicologia pedagógica tem de melhor. Parecem se arraigar ao passado mais remoto de seus ancestrais. Todavia, olhando para a juventude atual, acho pouco provável que uma moça se decida por ser atleta de ponta em voleibol, a não ser que vislumbre ganhos financeiros consideráveis, como está disseminado atualmente pelo mundo.   

Por Edison Yamazaki
em 12 de Junho de 2012 às 21:11.

Roberto,

O voleibol por aqui é uma febre. Tem times e torneios em todos os lugares. Muito parecido com o futsal no Brasil.

Até o nível ginasial, as crianças não são tão reprimidas, e até que "brincam" de jogar. Algumas até gostam. O problema é quando se está no colégio. Naquela idade entre 15 e 17 anos. O "leigo" treinador, talvez para impor respeito ou para esconder "o que não possui", se torma mal educado, agressivo. Se não houver um controle externo (país e família), as coisas podem terminar em agressão física, porque verbalmente eles são agredidos diariamente. Sei que é uma questão cultural ficar ouvindo calado, submisso aos mais velhos. Mas acho que as coisas não precisam ser assim.

Já as crianças menores são tratadas com mais respeito, até sorriem e brincam nas quadras. Como escrevi anteriormente, não existe um professor para ensinar esportes, então os treinos ficam a cargo de algum pai ou mãe que um dia foi jogador(a) do esporte em questão.

O respeito ao ser humano, sendo atleta, jogador ou não, está melhorando paulatinamente, mas ainda existe um longo caminho à percorrer. Mudar a cultura do esforço pelo esforço não é uma tarefa fácil, nem rápida, mas com os resultados ruins colhidos pelas equipes adultas, principalmente a nível mundial, tudo pode caminhar mais rapidamente.

Em tempo... meus filhos são jogadores de vôlei em suas respectivas escolas. O maior treina todos os dias e o menor duas vezes por semana porque além do vôlei, joga tênis e pratica natação.

Abraços,

 


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