Entre Golpes e Gestos: Jiu-Jitsu, Fascismo e a Política Nacional
Por João Júlio Gomes dos Santos Júnior (Autor).
Resumo
No dia 10 de julho de 2020, em meio a pandemia de COVID-19, o historiador Leandro Pereira Gonçalves fez uma intervenção pública no Twitter ao compartilhar a notícia de que havia descoberto que Hélio Gracie, um dos principais responsáveis pela introdução do Jiu-Jitsu no Brasil, havia participado do movimento integralista na década de 1930. Além disso, o pesquisador conseguiu localizar uma foto de primeira página do dia 3 de junho de 1936, no acervo do jornal A Offensiva, órgão do Partido Integralista. Acompanhando o tuíte como evidência, o lendário lutador brasileiro aparece na imagem vestindo a malfadada camisa verde com o símbolo do Sigma () enquanto assinava um contrato de luta contra o japonês Takeo Yano. Essa publicação gerou um grande engajamento e provocou um intenso interesse público que ultrapassou as redes sociais e chegou até portais de notícias, sites esportivos e canais do YouTube. Em resposta, parte da família Gracie e renomados praticantes desta arte marcial realizaram pronunciamentos, lives e debates sobre a informação divulgada pelo historiador. Em geral, as intervenções giraram em torno da defesa de Hélio Gracie em tentativas de desvinculá-lo do movimento fascista brasileiro. Os argumentos variaram desde libelos que recuperavam a sua trajetória nas artes marciais, explicações que destacavam sua posterior vinculação ao PSD, inclusive candidatando-se a deputado por este partido às tentativas de descontextualização que esvaziavam a fotografia de seu significado histórico ao afirmar que aquela teria sido apenas uma atividade de marketing de patrocínio. A polêmica aqui descrita nos serve de motivação para explorar tanto as conexões entre a história das ideias fascistas e do Jiu-Jitsu propriamente dito, quanto também para refletir sobre algumas questões de história pública, em especial sobre as formas com que o “passado prático” (WHITE, 2014) foi mobilizado em uma conjuntura política de ascensão e retorno do fascismo na contemporaneidade. Ao final traremos algumas reflexões finais sobre como essa polêmica mobiliza campos tão variados, como a História do Esporte, História das Ideias, História Pública Digital e História do Tempo Presente.