Integra

Compartilhamos o destino de Sísifo, cientes de que tentar salvar o mundo é como querer secar o mar. O sonho é arrebatador, a vontade ingente, a missão impossível: ninguém consegue ser salvador do mundo. Este apresenta-se cheio de contradições e problemas que não se deixam encaixar na nossa idealização. É complexo e controverso, jamais será exatamente como o idealizamos. Tudo parece contradizer a nossa visão e tornar o nosso empenho inútil. A tarefa é demasiada para qualquer um de nós. Todavia esta avaliação não desobriga da preocupação com o entorno. Se não procurarmos salvá-lo, perdemos a vida. Nada nos dispensa de prestar um pouquinho de atenção e esforço, de botar um cibinho de pão no farnel da humanidade. 

O que fizermos é sempre pouco; contudo o impacto supera o que supomos. As palavras e os atos são fósforos acesos no meio da noite; não iluminam quase nada, mas permitem ver a escuridão ao redor e podem inspirar alguém a seguir avante. A nossa parte melhora o texto e o contexto. Somos a vírgula e o ponto que surgem na tessitura das frases e as formoseiam. E assim diluímos e engrandecemos o ‘eu’ na obra superior que é o ‘nós’. Eis o bastante para aliviar o fardo, expiar a culpa e trazer leveza e sentido à caminhada. As coisas pequenas e ínfimas somam-se, criam as grandes e edificam mudanças ao longo do tempo.

Não se exige que participemos em todas as batalhas. A mais importante é a que está ao nosso alcance. Não lhe devemos voltar as costas; estamos obrigados a investir nela as energias e a paixão, a procurar fazer aí a diferença. A localização da conduta não significa isolamento, desatenção aos outros e às lutas que travam, aos desafios que enfrentam, às dores que sofrem. Somos parte da comunidade; o dever de defender o bem-comum e público pende sobre nós. Somos elos da extensa cadeia que liga toda a humanidade. Diz-nos respeito o que acontece em qualquer lugar, próximo ou longínquo. A escuta e a implicação são inerentes à condição humana. Não carregamos, mas sentimos o peso das agruras, anseios e realizações dos demais. Causas, ideais, sonhos e ideais conectam-nos com uma fina rede de empatia e cumplicidade. Destarte, mesmo sabendo que jamais consertaremos o mundo, move-nos a inquietude de tentar. 

Vale a pena deitar à terra a semente, dar o passo, estender a mão e praticar o gesto de aumentar e multiplicar. Talvez não vejamos os efeitos; porém, ao final, sossega-nos o balanço de ter assumido o que nos competia: tornarmo-nos melhores na imbricação com os outros. Isso, que não resolve nada, é muito, talvez o máximo da nossa passagem pela existência. Chama-se realização e não frustração e viver em vão.