O Que o Brasileiro Não Esquece Nem a Tiro é o Chamado Frango de Barbosa83 ? Questões Sobre o Racismo no Futebol Brasileiro.

Por: , Brum Paoli e Bruno O. de L. Abrahão.

IX Congresso Brasileiro de História do Esporte, Lazer e Educação Física CHELEF

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.Resumo

“A maior pena que existe para um crime no Brasil é de trinta anos. Mas desde 1950 eu sou condenado” (Barbosa, In: Moraes Neto, 2000:118). Frente à inconformidade da derrota do Brasil para o Uruguai na final da Copa de 1950 em pleno Maracanã, Nelson Rodrigues, importante dramaturgo e jornalista esportivo, nove anos depois teceu a estridente profecia87: “Vejam 50. Quando se fala em 50, ninguém pensa num colapso geral, numa pane coletiva. Não. O sujeito pensa em Barbosa, o sujeito descarrega em Barbosa a responsabilidade maciça, compacta, da derrota. O gol de Ghiggia ficou gravado na memória nacional, como um frango eterno. O brasileiro já se esqueceu da febre amarela, da vacina obrigatória, do assassinato de Pinheiro Machado. Mas o que ele não esquece nem a tiro é o chamado frango de Barbosa (1994, p. 69)” Passados 54 anos desta derrota e 4 da morte de Barbosa (27/03/1921 – 08/04/2000), o goleiro daquela ocasião, nosso objetivo com este artigo é analisar o processo de rememoração e esquecimento deste goleiro no imaginário coletivo. Torna-se relevante investigar a permanência deste goleiro no imaginário na medida em que sua imagem está associada a um dos emblemas do racismo no futebol e, por extensão, ao racismo no Brasil. É possível que tenha sido deste goleiro, a partir daquela partida, que tenha originado um preconceito, difundido no meio esportivo, de que ‘negro não dá para ser goleiro’. No segundo e decisivo gol do Uruguai a bola teria passado sob o corpo de Barbosa. Este lance, para alguns, deflagraria uma falha individual. Discutindo este tema, o literário Luiz Fernando Veríssimo testemunha que “(...) quando Barbosa deixou passar aquela bola de Ghiggia, em 50, o preconceito até então disfarçado endureceu e virou supertição.”88 Esta ‘crendice’ estaria ainda confirmada nas palavras de Hélton, na ocasião goleiro do Vasco da Gama: “sei que havia uma lenda de que goleiro negro era ruim, mas sempre procurei ignorar isso. Mas realmente penso em fazer com que as pessoas esqueçam este tipo de preconceito. Todos somos irmãos”.89 Em função daquele gol, Barbosa foi então o ‘eleito’ como o principal ‘culpado’ pelo infortúnio, como Moraes Neto (2000) observou no prefácio de sua obra: “teve de carregar nos ombros, até a morte, o peso da maldição do gol de Ghiggia”(p.53). O que restou da lembrança daquele goleiro? Como no imaginário coletivo as pessoas recordam de Barbosa? 83 Expressão retirada do livro A pátria de chuteiras – novas crônicas de futebol (1994:69) de Nelson Rodrigues. 84 Mestrando em Educação Física pela Universidade Gama Filho e bolsista do CNPq. 85 Doutorando na Universidade Gama Filho e prof. da Universidade Federal de Viçosa. 86 PPGEF da Universidade Gama Filho e prof. da Universidade Federal do Espírito Santo. 87 Nelson Rodrigues escreveu esta crônica em 30 de maio de 1959. Foi também publicada em Rodrigues (1994). 88 O Globo, 20/07/1999. Esportes, p. 7. 89 Lancenet [online], 14/01/2000 - 169 O que ele ainda representa para alguns brasileiros? Barbosa é realmente visto como o culpado pela derrota de 50? A primeira lembrança da derrota seria a face do goleiro? O que as pessoas lembram e esquecem sobre Barbosa? Será que os brasileiros consideram o gol decisivo uma falha do goleiro, que na linguagem do futebol e como quer Nelson Rodrigues (1994, p. 69), seria o “frango de Barbosa”? Para responder essas questões tomamos como fonte não os jornais, mas pessoas interessadas pelo futebol. Realizamos entrevistas semi-estruturadas com indivíduos das seguintes faixas etárias: 80, 70, 60, 50, 40 e 30 anos. Estes foram aleatoriamente selecionados e deveriam obedecer aos seguintes critérios: a) assistir aos jogos de futebol no estádio ou pela televisão; b) ler noticiário esportivo e c) considerar-se torcedor de um clube. Nesta primeira etapa do estudo entrevistamos um indivíduo por faixa etária, todos moradores da cidade de Belo Horizonte (MG). A memória é um campo de pesquisa da História Cultural. A História e a memória são representações narrativas que propõe uma reconstrução do passado. Entendemos representação como as imagens ou discursos de algo ausente. A memória permite que se possa lembrar sem a presença do objeto, simplesmente com a imagem no espírito, que surgem por evocação espontânea ou que podem ser despertadas por um ato ou objeto que ao reproduzir uma experiência ou sensação permitiria fazer aflorar uma lembrança (Pesavento, 2004). A Copa de 50 foi o último grande evento esportivo não captado pela TV. Souto (2002) atribuiu a ausência desse meio à construção de narrativas mitológicas sobre a derrota. A ausência de imagens irrefutáveis – ainda que estas mesmas possam ser passíveis de manipulação – deu lugar a uma construção coletiva através da tradição oral e principalmente pelos jornais da época, os grandes agenciadores da memória (Souto, 2002). Todavia, deveríamos nos perguntar se diante da imagem ao vivo ou da informação em tempo real, a sociedade perderia a capacidade de construir narrativas mitológicas. Pesavento (2004) faz ainda uma menção a uma forma de memória, chamada por Aristóteles de mneme, isto é, a presença involuntária de determinadas imagens do passado no espírito. A par com esta modalidade de memória, há outra, a anamnese. Esta seria um trabalho de busca, uma intenção deliberada na recuperação de lembranças. Ao contrário da mneme, ela seria voluntária e existiria um empenho de recuperar algo que ocorreu no passado. Este ato de rememorar não seria somente relembrado no plano da memória pessoal, mas também o que foi preservado ao nível de uma memória social, partilhada, ressignificada, fruto de uma sanção e de um trabalho coletivo. A “memória individual se mescla com a presença de uma memória social, pois aquele que lembra, rememora em um contexto dado, já marcado por um jogo de lembrar e esquecer” (p. 95). A Copa de 1950 conquistou um espaço privilegiado na memória do futebol brasileiro. Poderíamos pensar que a derrota em 1950, pela ênfase dada por jornalistas e acadêmicos, é uma das mais marcantes na memória do futebol nacional. A prova disso são os títulos das obras que se preocuparam com aquela final. Os adjetivos para designá-la geralmente tomam um vulto exacerbado, como por exemplo, o livro “Dossiê 50 – os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro” (Moraes Neto, 2000), a “maior frustração que tomou conta de um público gigantesco em um estádio de futebol” ou “a derrota das derrotas” (Moura, 1998:135). Ademais, as investigações sobre a lembrança deste evento parecem confirmar a sua permanência no nível das memórias individuais. Os entrevistados de Rigo & Silva (1998) e os que entrevistamos descreveram a final da Copa com uma precisão metódica e com uma sutileza de detalhes que somente estariam preservados na lembrança dos atores ao narrarem sobre eventos muito especiais. De fato, como atesta Moura (1998), aquela partida “transcendeu a simples condição de fato esportivo para alçar-se às dimensões de drama e mitologia, para converter-se em momento histórico da nação” (idem). O próprio 170 Nelson Rodrigues salienta que “cada povo tem a sua catástrofe nacional, algo assim como uma Hiroshima. A nossa catástrofe nacional, a nossa Hiroshima, foi a derrota frente ao Uruguai, em 1950” (1994, p. 116). Vale ressaltar que nosso texto também pretende investigar aquele evento, muito embora nossas expectativas iniciais fossem céticas em relação à permanência de 50 nas memórias individuais. Domingo, 16 de Julho de 1950. Esta seria a data para o coroamento da seleção e a consagração do Brasil. Mais do que vencer a Copa, o Brasil deveria (ainda que o empate bastasse) fazê-lo de uma forma inquestionável, com uma larga vantagem de gols para não restar dúvidas da superioridade do brasileiro. Nelson Rodrigues (1994) diz ter escutado o espíquer Gagliano Netto jurar: - “o Brasil vai ganhar de 8x0”90 (p. 116). O jornalista complementa salientando que este “não era um otimismo isolado, solitário. Milhões de brasileiros tinham a mesma certeza fanática. O já ganhou instalara-se na alma do povo. E não queríamos uma vitória apertada. O escore pequeno seria humilhante para o nosso orgulho. Queríamos a goleada faraônica. E, por isso, quando diante de 200 mil patrícios, e escrete fez 1x0, nas bastou para a nossa sede e nossa fome. Exigíamos quatro, cinco, meia dúzia. E aconteceu o que se sabe” (Idem. O itálico é nosso) O Brasil era uma nação em busca de afirmação, e o sucesso da seleção contribuiria para isto. A metonímia era possível. A Copa de 50 se dava em uma fase para a auto-afirmação nacional em vários aspectos e Nelson Rodrigues foi um dos protagonistas daquele cenário. Esta auto-afirmação crescia à medida em que nosso selecionado vencia seus adversários. A construção do Maracanã e o sucesso da seleção eram favoráveis para que o brasileiro se orgulhasse de si mesmo. Soares (2002) mostra que a realização deste evento carreava uma série de significados internos e externos para o Brasil. Era a primeira Copa a ser realizada após a Segunda Guerra. Com efeito, as relações internacionais estavam em processo de reconstrução. Para o Brasil, sediar um evento daquela grandeza significava mostrar às outras nações a sua capacidade de organização e desenvolvimento. Para tanto, o Maracanã foi construído em tempo recorde, o maior estádio do mundo, o grande símbolo da época, que seria o palco dos grandes jogos daquele certame. Estaria demonstrada com aquele feito a capacidade técnica e empresarial do país. Nas palavras do prefeito Mendes de Moraes, “a prova imortal da grandeza de nosso povo” (Perdigão, 2000:38). O Jornalista Mário Filho, nome dado ao estádio após sua morte, empenhou-se inteiramente à edificação. Todo este empenho, como proprietário de um jornal, poderia aludir algum interesse comercial. No entanto, os interesses parecem ir além das vendas de jornais.

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