Quando o corpo virou política: a Educação Física no projeto das “elites” para a modernização do Brasil
Integra
A Educação Física é uma porta de entrada para a cultura
Este artigo inaugura uma série de três textos dedicados à análise da atuação de Fernando de Azevedo como intelectual reformador e protagonista de um projeto de organização da cultura no Brasil republicano, no qual a educação ocupou lugar central. Ao discutir sua trajetória e pensamento, busca-se evidenciar não apenas suas contribuições para a educação, a ciência e a universidade, mas também um tema incontornável de seu tempo: o lugar atribuído ao corpo, à saúde e à eugenia no interior do projeto de modernização do país.
O corpo como problema nacional
No início do século XX, o Brasil vivia uma combinação explosiva de quase quatrocentos anos de heranças escravocratas, urbanização acelerada e profundas desigualdades sociais. Diante desse cenário, as elites políticas e intelectuais passaram a interpretar o país a partir de um diagnóstico recorrente: o Brasil seria um país “doente”, atrasado e socialmente desorganizado.
O corpo popular, negro, mestiço e pobre, tornou-se alvo privilegiado das intervenções do Estado e da ciência. Higienismo, sanitarismo e eugenia passaram a operar como linguagens legítimas da política, travestidas de neutralidade científica.
Não se tratava apenas de cuidar da saúde pública, mas de ordenar a população, corrigir comportamentos e produzir um ideal de normalidade corporal e moral compatível com o capitalismo urbano em expansão.
Educação Física e eugenia: ciência aplicada ao corpo
É nesse contexto que a Educação Física ganha centralidade. Longe de ser um detalhe pedagógico, ela se consolidou como instrumento estratégico de intervenção social.
As teses eugenistas, importadas da Europa e amplamente difundidas no Brasil, defendiam a melhoria da população por meio do controle biológico, moral e cultural dos indivíduos. A Educação Física escolar passou a ser vista como meio eficaz para fortalecer corpos considerados fracos, corrigir desvios físicos e morais, promover hábitos higiênicos, formar uma população mais produtiva e disciplinada.
Fernando de Azevedo se insere plenamente nesse universo intelectual. Em seus escritos iniciais sobre Educação Física, dialoga diretamente com o vocabulário da ciência positiva, da saúde e da regeneração social. A ideia de formar corpos saudáveis estava associada à construção de uma nação moderna, forte e civilizada. Negar essa presença seria falsear a história.
As particularidades de Azevedo no interior do discurso eugenista
No entanto, a relação de Azevedo com a eugenia não é mecânica nem homogênea, como muitas leituras posteriores sugerem.
Ao contrário de intelectuais explicitamente racialistas, como Oliveira Vianna, Azevedo não construiu sua interpretação do Brasil a partir de uma hierarquia racial rígida. Sua adesão inicial às teses eugenistas esteve menos vinculada à biologia racial e mais associada a uma visão evolucionista e cultural da sociedade.
Para Azevedo, a educação, incluindo a Educação Física, poderia atuar como mediadora entre natureza e cultura. O corpo não seria apenas um dado biológico, mas um campo moldável pela ciência, pela escola e pela vida social.
Essa distinção é decisiva. Ela ajuda a compreender por que, ao longo de sua trajetória, Azevedo se desloca progressivamente das explicações raciais para interpretações culturais, sem jamais abandonar a centralidade da ciência como princípio organizador da vida social.
O corpo entre controle e humanismo
A Educação Física defendida por Azevedo carregava, portanto, uma ambiguidade estrutural. De um lado, operava como tecnologia de controle social, alinhada às políticas higienistas e às preocupações eugenistas do período. De outro, era apresentada como parte de um projeto humanista de formação integral, inspirado na cultura clássica e na sociologia durkheimiana. Essa tensão atravessa toda a sua obra. O corpo aparece, simultaneamente, como objeto de normalização e condição para a formação plena do indivíduo
É justamente essa ambivalência que torna Fernando de Azevedo um personagem historicamente relevante, e não um simples reprodutor de ideias racistas nem um reformador progressista idealizado.
A Educação Física como porta de entrada para a cultura
Ao inserir a Educação Física no centro da educação escolar, Azevedo contribuiu decisivamente para ampliar o conceito de cultura no Brasil. Cultura não seria apenas literatura, artes ou erudição livresca, mas também cultura corporal, hábitos, saúde e modos de vida.
Esse movimento inaugura uma inflexão importante em sua trajetória intelectual. A partir daí, o corpo deixa de ser apenas alvo da ciência médica e passa a integrar um projeto mais amplo de organização cultural da sociedade brasileira, projeto que se desdobrará no censo demográfico, na interpretação da identidade nacional e, finalmente, na universidade.
O corpo como primeira fronteira da política cultural
A Educação Física foi o primeiro laboratório desse projeto. Foi ali que ciência, educação e política se encontraram de forma mais visível. Foi ali que as teses eugenistas se articularam ao ideal de modernização. E foi ali também que emergiram os limites e as contradições desse modelo.
Compreender esse momento não significa julgá-lo com os critérios do presente, mas reconhecer que o corpo foi a primeira fronteira da organização da cultura brasileira. É a partir dele que Fernando de Azevedo inicia um percurso que marcará profundamente a história da educação, da ciência e das instituições culturais no Brasil.
Alexandre Machado Rosa