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Se a Educação Física foi, para Fernando de Azevedo, o primeiro campo de intervenção sobre o corpo social, e o censo demográfico o instrumento de leitura e organização da população, a universidade representou o momento de síntese de seu projeto intelectual. É na criação da Universidade de São Paulo, em 1934, que esse esforço de organização da cultura brasileira alcança sua forma institucional mais acabada.

A universidade não surge, em sua trajetória, como uma iniciativa isolada, mas como resposta a um diagnóstico persistente até os dias atuais: a fragilidade histórica da produção científica e cultural no Brasil.

A crítica à improvisação intelectual

Desde o início do século XX, Fernando de Azevedo denunciava o que considerava um traço estrutural da vida intelectual brasileira: a improvisação. O país formava bacharéis, mas não produzia ciência de forma sistemática; valorizava títulos, mas negligenciava a pesquisa; acumulava retórica, mas carecia de método.

Para Azevedo, a ausência de uma universidade moderna explicava, em grande medida, a dependência cultural e científica do Brasil em relação à Europa. Sem instituições estáveis de produção do conhecimento, o país permaneceria refém de soluções importadas e incapaz de interpretar a si mesmo.
A universidade aparecia, assim, como condição para a autonomia cultural e científica.

A USP como projeto de cultura e de Estado

A criação da Universidade de São Paulo não pode ser compreendida apenas como uma iniciativa educacional. Ela se insere em um contexto político específico, marcado pelo movimento paulista de 1932, frequentemente tratado como revolução, mas que pode ser interpretado, de forma historicamente mais rigorosa, como uma reação das elites paulistas ao deslocamento do poder político ocorrido com o fim da chamada República do café com leite, que havia garantido, por décadas, a alternância entre São Paulo e Minas Gerais no comando do país.

Mais do que uma revolução, 1932 configurou-se como uma contra-revolução, expressão da resistência paulista à reorganização do Estado nacional após 1930. A derrota militar do movimento não encerrou, contudo, sua influência histórica. Ao contrário, abriu espaço para uma estratégia alternativa de afirmação política. São Paulo adotou o investimento sistemático na educação, na ciência e na cultura como forma de enfrentar a aliança que colocou a terra do café para fora do poder central. 

É nesse contexto contraditório, de reação política combinada com inovação institucional,  que se consolida o projeto da USP.

Ciência, humanismo e formação das elites

Fernando de Azevedo teve papel central na defesa de um modelo universitário baseado na pesquisa científica, na formação humanista e na integração entre ensino, investigação e cultura. A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras foi concebida como o núcleo irradiador desse projeto, responsável pela formação dos quadros intelectuais que conduziriam o desenvolvimento científico do país.

Para Azevedo, a democracia moderna exigia a existência de grupos intelectualmente qualificados, capazes de produzir conhecimento, formular políticas públicas e sustentar o debate racional na esfera pública. A universidade deveria cumprir esse papel estratégico.

Esse ideal, no entanto, carregava uma tensão estrutural. Ao apostar na centralidade das elites culturais, o projeto universitário limitava seu alcance social imediato. O próprio termo “elite”, utilizado por Fernando de Azevedo para designar grupos intelectuais responsáveis pela produção e difusão do conhecimento, acabou sendo apropriado por uma fração das classes abastadas como sinônimo de distinção social e privilégio, e não como responsabilidade pública. Nesse deslocamento, a ideia de elite intelectual foi convertida, em certos contextos, na noção de uma espécie de casta social diferenciada, supostamente legitimada a ocupar posições de mando e a usufruir de benefícios exclusivos. A democratização do acesso ao ensino superior, portanto, não ocupava lugar central naquele momento histórico e tampouco foi capaz de impedir essa apropriação conservadora do projeto universitário.

Universidade e democracia: uma relação tensa

Apesar de seus limites, o projeto azevediano estava ancorado em uma convicção firme: não há democracia sem ciência, nem ciência sem instituições sólidas. A universidade deveria ser espaço de crítica, reflexão e produção de conhecimento, capaz de sustentar uma vida pública minimamente racional.

Essa concepção se opunha tanto ao autoritarismo quanto ao pragmatismo estreito que reduzia a educação à mera formação utilitária para o mercado. Para Azevedo, a universidade tinha uma função cultural ampla: interpretar a sociedade, formar cidadãos e produzir ciência.

Essa defesa da autonomia universitária permanece atual em um país que, ciclicamente, desvaloriza o conhecimento e fragiliza suas instituições acadêmicas.

O fechamento de um ciclo histórico

Com a criação da USP, Fernando de Azevedo encerra um ciclo iniciado décadas antes. O corpo, a população e a universidade passam a integrar um mesmo projeto de organização da cultura brasileira, mediado pela ciência, pela educação e pelas instituições.

Esse projeto não esteve livre de contradições. Conviveu com discursos eugenistas, com limites democráticos e com exclusões sociais profundas. Ainda assim, produziu uma inflexão duradoura na forma como o Brasil passou a pensar educação, cultura e ciência.

O legado em disputa

Discutir Fernando de Azevedo hoje não é exercício de homenagem nem de condenação retrospectiva. É reconhecer que a universidade, a ciência e a cultura são campos de disputa permanente.

Em tempos de ataques às universidades públicas, de deslegitimação da ciência e de precarização do pensamento crítico, revisitar esse projeto histórico ajuda a compreender uma lição fundamental: a cultura não se organiza espontaneamente. Ela exige instituições, investimento público e decisão política.

A Universidade de São Paulo, com todas as suas contradições, é parte desse legado. E o debate sobre seu sentido social permanece aberto, aliás, como deve ser em qualquer sociedade que se pretenda democrática.