Resumo
Esta tese defende que há uma relação entre habitus e práxis na formação de recreadores e, consequentemente, na teoria da prática da recreação no Brasil. Todavia, embora haja tradição do conhecimento sobre recreação na graduação em Educação Física, a recreação não é pensada no meio universitário como um conhecimento, sendo relegada apenas a um saber- fazer. Devido a essa caracterização instrumental, historicamente as pessoas buscam formação em recreação em cursos ?práticos? de curta duração, os quais respondem de forma imediata e positivada às demandas da intervenção da recreação total, ou seja, aos diferentes campos de trabalho dessa área. A demanda, assim constituída, é satisfeita por um tipo específico de agente-formador, dotado de um capital cultural que o qualificou para ofertar conteúdos e estratégias para a atuação profissional na recreação. Sendo, pois, esses agentes especializados em pensar a recreação, qual é a práxis e o habitus que os qualificam nesse subcampo? Frente a essa lacuna, investigamos os saberes dos agentes formadores de recreadores no Brasil, identificando os elementos consensuais para a construção dos rudimentos de uma teoria da prática sistematizada da Recreação. Trata-se de pesquisa descritiva, com entrevistas estruturadas e captação de consensos entre experts, utilizando o método Delphi. Participaram do estudo 09 formadores, dentre os mais importantes em cursos de curta duração de recreação no Brasil na área de Educação Física. As entrevistas foram transcritas, revisadas e organizadas utilizando-se do software Atlas.ti 8.4.2 versão PRO. Esse recurso foi utilizado para aplicar a metodologia de Análise de Conteúdo, conduzindo as etapas de pré-análise, exploração do material e inferências. Um esforço foi traçar as trajetórias de vida e as instâncias formadoras que moldaram o habitus dos recreadores-formadores no Brasil, à luz da teoria de Pierre Bourdieu. As trajetórias indicam que o habitus do recreador-formador é constituído na inteligência emocional e na relação humana, o que lhes confere um status superior dentro de sua categoria social. Isso os privilegia em ser criativos, cunhando atividades, conteúdos e procedimentos para que outros recreadores também possam se beneficiar desses conhecimentos em suas intervenções profissionais e no seu desenvolvimento humano. Em seguida, aplicamos o método Delphi, que ocorreu em duas fases, com vistas a sintetizar o que esses formadores sabem/ensinam. Os resultados indicam que a recreação, enquanto atividades lúdicas mediadas para a experiência lúdica das pessoas, ainda é um conhecimento que se encontra no pensamento instrumental. Em termos epistemológicos, o limite da práxis dos agentes é se voltar para as atividades recreativas de forma indutiva, o que está intrinsicamente ligado ao lugar social herdado pelos agentes, em conformidade ao habitus. Por outro lado, a partir da exegese das categorias pelas quais esses agentes compreendem o fenômeno, é possível abstrair modelos interpretativos na perspectiva de um programa investigativo dos fundamentos de uma teoria da prática da recreação