O Campeonato de futebol de S. Benedito
Por Augusto Nascimento (Autor).
Resumo
Esta comunicação aborda um campeonato de futebol próprio – dos ditos “indígenas” –, criado na periferia da cidade da Beira, em torno da missão católica de S. Benedito da Manga, nos derradeiros decénios do colonialismo. A especificidade não estava num tipo de futebol, cujas particularidades indiciassem sentimentos políticos, nem numa recusa, subliminar, da pressuposta inferioridade face ao campeonato federado, malgrado as constantes dificuldades, mormente com as infraestruturas e com o défice de pessoal habilitado para a condução de praticantes e dos jogos. Diferentemente, a especificidade esteve na criação de um campeonato que, a dado passo, pela sua capacidade de organização e valia competitiva, terá suscitado paixão equiparável ao campeonato federado de Manica e Sofala. O jornal Voz Africana, de início dirigido por um sacerdote europeu, divulgou o campeonato de S. Benedito e, dessa forma, impulsionou a ampliação de um ambiente de emotividade entre os africanos – cite-se, por exemplo, a publicação de fotografias dos jogadores –, apegados aos diversos clubes por razões variadas, desde a afinidade de origem à qualidade de jogo e à trajetória clubística. Não se contestava o colonialismo? Todavia, contornavam-se algumas das suas barreiras. Não seriam as de significado político mais vincado? Eram, porém, aquelas cuja superação mais sentido ou gratificação poderiam trazer a vidas de africanos, marcadas pelo trabalho estrénuo e por ásperas condições de sobrevivência. À guisa de hipótese interpretativa, o traço distintivo do campeonato de S. Benedito da Manga não foi a instrumentalização ou o aproveitamento político do futebol, detetável noutros processos de luta política, mormente nas colónias portuguesas. A nota distinta do referido campeonato de S. Benedito foi a promoção da atividade desportiva dos “indígenas” a um elevado patamar de organização, ademais independente da tutela subalternizadora da administração estatal. Num regime colonial ditatorial, tal cometimento não terá sido de somenos. E, acima de tudo, gratificante para os africanos.