Resumo
A presente pesquisa teve como propósito investigar a relação corpo e máscara a fim de compreender como essa interlocução se constrói e se efetiva no tempo-espaço da festa carnavalesca. Especificamente, objetivou-se estudar a máscara no carnaval de Veneza e sua dimensão social na conjuntura da festa; entender como os artesãos percebem a máscara e sua apropriação no carnaval da cidade; verificar como foliões trajados tradicionalmente no carnaval concebem a máscara e como dela se apropriam; discorrer acerca da relação corpo e máscara no carnaval a partir de como esse vínculo é construído na festa. O desenvolvimento investigativo deu-se por meio de incursões teóricas e de campo, com observação do contexto festivo e entrevistas com dez artesãos venezianos e vinte e oito foliões mascarados durante o carnaval veneziano nos anos de 2013 e 2014. O diálogo entre evidências empíricas – observações registradas em diário de campo, imagens e entrevistas – e literatura disponível e acessível aos pesquisadores possibilitou a análise de dados com vistas a responder aos objetivos propostos. Os dados apontam para a densa relação corpo e máscara. Dessa interlocução decorre o pensamento de que a máscara representa mais do que um artefato contemplativo, pois exerce forças sobre o corpo que se mascara, levando-o a manifestações diferentes daquelas realizadas no cotidiano, o que faz com que novas experiências corporais sejam efetivadas – relacionadas à criação artística e estética, à representação cênica e à expressão lúdica geradas no contexto carnavalesco. Constata-se que o folião que brinca o carnaval veneziano encontra momentos para criar, encenar e atuar, assinalando o entendimento dialético de que o corpo expressa-se como extensão da máscara e, ao mesmo tempo, a máscara se expressa como extensão do corpo, criando uma espécie de corpo híbrido, expresso pela figura do mascarado. Tais configurações não se dão desprovidas das tensões constitutivas entre sensível e racional, normativo e transgressivo, lúdico e disciplinado, o que abre espaços para que os sujeitos, na condição de protagonistas, possam buscar a mediação orientadora das suas práticas corporais, transcendendo a racionalidade posta como instrumental rumo à construção de outra racionalidade possibilitada pela compreensão desse artefato mítico que se torna vivo pela experiência do corpo.